Saludos daqui do outro lado da fronteira.

Luana em Buenos AiresPara quem não acreditava em relacionamentos à distância, arranjar um namorado em outro país foi um desafio. Sem nunca pensar em morar em Buenos Aires, mas cansada da distância, deixou sua família, amigos e carreira em Curitiba e apostou no amor. Se mudou para Buenos Aires em busca de novos desafios e experiências, encontrou novos costumes, uma nova língua e uma nova Luana, que adora cozinhar e escrever.

– Nome:
Luana de Borba

– Onde nasceu e cresceu?
Curitiba, PR

– Em que país e cidade você mora?
Buenos Aires, Argentina
Luana em Buenos Aires

– Você mora sozinho ou com sua família?
Moro com meu namorado.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Estou morando há 1 ano e 9 meses em Buenos Aires.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiência?
Sim, já morei a trabalho em dois cantos do mundo: nos Estados Unidos, por 6 meses em 2005. E depois na Coréia do Sul, por 2 meses em 2009.

– Qual sua idade?
Tenho 32 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Eu estava desmotivada no meu trabalho em Curitiba e precisava de novos ares. Além disso, meu namorado é argentino e estávamos namorando há 3 anos à distância. Esta situação já estava desgastando nossa relação. Como ele não tinha a possibilidade imediata de se mudar, juntei o útil ao agradável, entrei em contato com uma pesquisadora argentina, consegui um trabalho aqui e vim morar com ele.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Sim e Não. Na verdade, não foi difícil, mas sim muito burocrático! Se a gente acha que tem muita burocracia no Brasil, é porque ainda não conhece a Argentina!
O Brasil e a Argentina fazem parte do acordo bilateral de residência, o “Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados Partes do MERCOSUL”, que prevê que “todos os nacionais brasileiros, argentinos, paraguaios, uruguaios, chilenos, bolivianos e peruanos poderão estabelecer residência em qualquer um dos países signatários, independentemente de estarem em situação migratória regular ou irregular; com a concessão de residência temporária por dois anos e, posteriormente, com a transformação desta em residência permanente.”
No meu caso, eu liguei para o Consulado da Argentina em Curitiba e me passaram por e-mail todas as informações do trâmite de residência, que pode ser feito desde o Brasil ou depois da entrada na Argentina (junto com o trâmite do DNI, ver abaixo). Eu preferi fazer no Brasil e já me mudar com a residência temporária.
Não é nada complicado! Eu tive que apresentar uma série de documentos (passaporte, certidão nascimento legalizada, certidão de antecedentes criminais expedido pela Polícia Federal brasileira original e legalizada), fotos e pagar as taxas.
Os documentos tem que estar com firma reconhecida em cartório. A legalização dos documentos pode ser feita gratuitamente no “Ministério das Relações Exteriores” no Itamaraty em Brasília, pessoalmente (em 1 dia) ou por correio (que pode demorar semanas), ou ainda no próprio consulado, mas cobram meio caro pelo serviço.
E depois, para completar o pacote de documentos, já na Argentina, dei entrada para conseguir a identidade argentina, aqui chamada de DNI. Informações na página da “Dirección Nacional de Migraciones”.
Luana em Buenos Aires

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Eu não fiz nenhum seguro antes de sair do Brasil e ainda não tenho plano de saúde por aqui, por uma questão financeira, pois os planos são caros para a nossa renda (e por sorte, nunca precisei). Porém, continuo tendo meu plano de saúde em Curitiba, por ser familiar, e, como estou relativamente perto, acabo usando as viagens de visita para as consultas de rotina também. Mas provavelmente nos próximos meses conseguirei um plano pelo trabalho, pois vou receber outro tipo de bolsa que inclui um plano de saúde básico.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Sim. Sou bióloga e trabalhei por 10 anos em um laboratório de pesquisa da FIOCRUZ em Curitiba, entre Monografia, Mestrado, Doutorado e um contrato como Tecnologista. Quando decidi me mudar, tive que procurar alternativas em Buenos Aires, e entrei em contato com uns 3 pesquisadores da área em busca de oportunidades de pós-doutorado. Depois de muitos e-mails trocados (durante mais ou menos 4 meses), consegui uma brecha com a pesquisadora com quem eu realmente queria trabalhar. Depois que deixei meu emprego em Curitiba, passei 1 mês em Buenos Aires e fiz 2 entrevistas com essa pesquisadora que acabou me aceitando para fazer um post-doc no seu laboratório. Na vida da pesquisa científica não é fácil conseguir um contrato, e aqui não é diferente. Eu tenho uma bolsa de um subsídio internacional que minha chefe conseguiu logo que entrei no lab, e que, teoricamente, seria de até 2 anos, mas dependendo de outros subsídios que ela consiga e dos resultados promissores do projeto, podemos estender esse prazo.
Para conseguir empregos, sei que o LinkedIn está na moda para fazer contatos de trabalho. E aqui na Argentina tem um site com ofertas de emprego, o ZonaJobs.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Eu continuo na mesma área. Na verdade, eu procurei justamente grupos de pesquisa que trabalhavam com a mesma linha de pesquisa que eu vinha trabalhando no Brasil, para não ter que mudar de área ou começar a estudar um “bicho” novo.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Sim, eu falo espanhol, e acho bem importante aprender a língua local. Muitos acham que porque meu namorado é argentino, eu aprendi espanhol com ele, mas não é bem assim. Quando nos conhecemos, eu não falava nada de espanhol e ele sabia português, então começamos nos comunicando em português, e assim ficou, nossa língua oficial (até hoje) é o português!
Fui aprendendo espanhol aos pouquinhos, primeiro com as visitas a Buenos Aires e a família do Carlos, quando eu boiava nas conversas, falava muitas coisas erradas e ninguém me entendia. Uma vez, tentei estudar no Brasil, mas não vingou. Depois que eu me mudei para cá é que eu aprendi de verdade, na marra, no cotidiano, me fazendo entender de alguma maneira, aprendendo de ouvido… eu peguei rápido, já me virava bem, mas eu sentia que faltava o conhecimento real da língua, as regras de gramática, o contexto das coisas, então comecei aulas particulares e isso me ajudou muito! Não posso dizer que “hablo perfectamente”, “pero, hablo bien”! Muitas pessoas já elogiaram meu espanhol, dizem já tenho sotaque “portenho” e que, só depois que eu digo que sou brasileira, comentam algo do tipo “eu percebi algo diferente, mas não sabia o que era…”. Fico feliz!
Na verdade, parece fácil, por ser uma língua parecida e temos o nosso famoso “portunhol”, mas justamente por ser tão parecido, para mim é mais complicado de aprender bem, pois é muito fácil confundir as palavras (e acabar falando besteiras!).

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Apesar da grande rixa Brasil-Argentina no futebol, aqui eles não levam para o lado pessoal como o brasileiro, muito pelo contrário, os argentinos adoram os brasileiros (e as nossas praias). Muitos falam mal do portenho, e realmente eles tem uma maneira menos amigável, mas dizer isso é generalizar, e na prática não é bem assim… eu conheci muitos portenhos bacanas e todos me tratam super bem por aqui. É só não provocar com futebol (que eu não ligo muito pra isso mesmo) e principalmente não tentar comparar o Pelé com o Maradona, porque aí a casa cai!!!

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Eu ainda não tenho filhos….

– Sente saudades da família no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Sim, sinto muitas saudades, da minha família, dos meus amigos e de ver meus sobrinhos crescerem de perto… Da comida, sinto falta de muitas coisas… coisas que você só dá valor quando não tem disponível e coisas que eu realmente gostava de comer e que aqui eu não encontro, ou é caro, ou não tem o mesmo gosto… Alguns produtos eu (e todos que vem me visitar) acabo trazendo “de contrabando” na mala a cada viagem, mas nem tudo dá pra trazer. Mas tenho certeza que um dia, se eu não morar mais aqui, também vou sentir saudades das empanadas, dos sorvetes artesanais, da pizza com faina, ou até de tomar mate entre amigos…
Luana em Buenos Aires

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Eu tento passear e conhecer coisas diferentes da cidade na medida que o cansaço me deixa… com o cotidiano cansativo, às vezes prefiro ficar em casa para limpar, ordenar, descansar e aproveitar meus hobbies, como cozinhar e escrever no meu blog, mas sempre tenho planos anotados e uma listinha de lugares que ainda quero conhecer em Buenos Aires.
Buenos Aires tem muitas atividade nos fins de semana (ver link no final da entrevista), então tem sempre o que fazer, basta se informar! Senão estão os parques e praças, as bicicletas de aluguel, os cafés, as livrarias e os vários pontos turísticos… Dá pra fazer muuuuuita coisa por aqui.
Luana em Buenos Aires

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Quando me mudei pra cá, a ideia não era ficar aqui pra sempre, nós concordamos que seria uma fase, até meu namorado acabar o doutorado, para depois irmos para outro lugar, ou até mesmo voltar para o Brasil. Ainda não sabemos ao certo qual será nosso futuro…

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imóveis é algo comum nesse país?
Nós alugamos um apartamento grande em um bairro bom, e tivemos muita sorte, pois alugamos de uma conhecida, então o preço é abaixo do mercado (cerca de R$800/mês + R$280 de condomínio, *valores de câmbio de Maio de 2013) e tivemos menos burocracia que com uma imobiliária.
Geralmente, aqui em Buenos Aires, esse é um assunto complicado não só para estrangeiros, mas para a população local também… O sistema é bem diferente do Brasil, para comprar um imóvel, se paga à vista (é muito difícil conseguir comprar parcelado, acho que só parcelando o empréstimo que você fez no banco) e em dólar (e quase sempre em notas, nada de transferências bancárias, uma loucura!!!!). * O dólar aqui é a segunda moeda, e os apartamentos são negociados nessa moeda!
Os aluguéis estão cada vez mais caros, e para conseguir alugar é outro parto (Agradeço sempre pela nossa sorte!). Para alugar por imobiliária, o que é o mais comum, tem que ter um fiador (aqui chamado de “garantia”), normalmente que tenha imóveis na Capital Federal. Aí quem é de fora, ou até mesmo de outra Província, já tem problemas para conseguir alguém como fiador. Às vezes, eles te pedem para provar renda, que deve ser de pelo menos 3x o valor do aluguel. O esquema da comissão da imobiliária é um pouco diferente… Enquanto no Brasil a imobiliária fica com uma % do aluguel todos os meses, aqui a comissão é toda de uma vez no início do contrato. Para entrar no apartamento alugado você tem que dispor de 4 a 5x do valor do aluguel em “cash”, o equivalente a 1 mês adiantado (mês que você está entrando no apê), 1 mês de depósito (que te devolvem no final, se você cumprir o contrato e devolver o apartamento “inteiro”) e 2 meses a 2 meses e ½ de comissão para a imobiliária. Ainda existe outra opção, para os estrangeiros que chegam sem nada e sem garantia, o aluguel de “apartamentos para estrangeiros”, que são equipados, com eletrodomésticos e móveis, mas que são cobrados em dólar e são um tanto caros…
Uma curiosidade, os apartamentos não são anunciados pela quantidade de quartos, e sim por ambientes, ou seja, um apartamento de 2 ambientes, tem 1 quarto e 1 sala (se presume que a cozinha e o banheiro são básicos), se é um 3 ambientes, tem 2 quartos e 1 sala, etc. E um “monoambiente”, é uma quitinete, com quarto e sala integrados.
Tirando a fase da atual crise na Argentina, comprar imóveis é considerado um bom investimento para o argentino. Conheço muita gente que tem vários apartamentos alugados (que comprou em uma época de vacas gordas do país).

– Qual o custo de vida?
Acho que a resposta para essa pergunta é a mesma em qualquer lado do mundo… Depende!!! Depende do estilo de vida que você quer ter, depende da inflação momentânea, etc.

Nossas despesas básicas são:
* aluguel+condomínio (aprox. R$1.100)
* água+luz+gás (aprox. R$45 a cada 2 meses, que na capital é subsidiado pelo governo, por isso acabamos pagando um valor ridiculamente barato)
* telefone fixo+internet+TV a cabo+celular (aprox. R$150)
* mercado (que varia e não sei bem quanto gastamos por mês)
*+ inflação…

Eu também andei conversando com uma colega do laboratório, argentina, que tem 3 filhos, para ter uma ideia de outros gastos em uma família com filhos: escola (tem a opção da escola pública, que aqui é muito boa), transporte escolar, empregada/babá, planos de saúde (que com filhos não tem como não ter), carro (combustível, estacionamento, seguro)… e chegamos a conclusão de que com uns R$6.000 por mês (algo em torno de $15.000 pesos) seria suficiente para viver justo, sem luxos ou imprevistos…

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Para mim, o principal ponto positivo é estar perto do Brasil (de Curitiba), pois é fácil e relativamente barato (comparado com outros lugares mais longes do Brasil) poder visitar a família e matar um pouquinho da saudade. Tem voo todos os dias, e agora um voo direto Bue-Cwb, em 2 horas estou “em casa”.
De ponto negativo eu poderia dizer que é a instabilidade econômica. A Argentina está acostumada a ter muitos altos e baixos. Teve seu auge há pouco tempo, entre 2008-2009, quando era tudo muito barato (e os brasileiros se esbaldavam em compras e turismo), mas atualmente estamos em uma crise importante. A inflação, a desvalorização da moeda, o problema da compra de dólares, o bloqueio das importações, etc.

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
O que eu acho bem curioso e bacana é a profissão de “passeadores de cachorros”. É muito comum cruzar na rua com uma pessoa levando de 6 a 10 cachorros ao mesmo tempo. Ou em parques e praças muitos passeadores e uma matilha de cães interagindo. Como muitas pessoas tem animais de estimação dentro dos apartamentos e trabalham o dia inteiro, usam esse serviço para que os cachorros saiam passear mais vezes por dia, que o próprio dono não teria tempo de fazer.
Luana em Buenos Aires

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil?
Eu acho que o ensino superior, que é o oposto do que acontece no Brasil. Aqui eles não tem vestibular, tem vaga na universidade pública pra todo mundo e com ensino de qualidade, mas para se formar é que o bicho pega. São muito mais exigentes, e por isso, eles comemoram raspando o cabelo e sujando com tinta, quando as pessoas conseguem terminar a faculdade.
Em geral, o ensino público na Argentina é muito bom, desde a escolinha até a faculdade. Mas mesmo assim, muitos optam por pagar os estudos, em escolas e universidades particulares, seja por incompatibilidade de horários, ou porque o curso é meio novo/específico e só tem em determinadas universidades, ou porque para poder estudar a pessoa tem que se mudar para alguma cidade e isso implica em gastos com aluguel, se estabelecer e se manter.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Identidade: Tenha paciência para conseguir os documentos, é bastante burocracia e muita fila.
Aluguel: Procure muito, não tenha expectativas muito altas e visite os apartamentos antes de alugar (se vê cada coisa por aí…). Procure alugar perto de onde vai trabalhar ou estudar, para ganhar tempo em transporte no dia a dia.
Língua: Estude e se esforce em falar bem o espanhol, facilita a vida.
Cultura: Venha preparado para uma nova cultura, costumes diferentes e humores diferentes.
E o principal, leia muito sobre Buenos Aires, ou sobre a cidade que vai se mudar. Procure blogs de brasileiros que moram nessa cidade para conseguir mais dicas.

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiência que esta vivendo nesse país, qual seria?
Lição de vida!

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
Eu tenho um blog, o “BuenosAiresdaLu. A idéia surgiu depois que comecei a seguir vários blogs sobre brasileiros em Buenos Aires e tive vontade de fazer algo diferente para me sentir mais perto das pessoas que estão longe. Tem um pouco do meu dia-a-dia, um pouco de cultura e passeios locais, um pouco de culinária e dicas para quem está vindo pela primeira vez, na sessão “Dicas de Buenos Aires”. No meu blog também estão relacionados outros blogs de brasileiros que vivem na Argentina, à direita, no “Eu também sigo…”.

Na página oficial do Governo de Buenos Aires tem muitas informações úteis, sobre vários assuntos.

Buenos Aires também tem muitos eventos culturais, é uma cidade que não para… no facebook tem uma página bacana com todos os eventos da cidade, a Agenda Cultural.

2 Respostas

  1. parabens pela experiencia!

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