Uma Jornalista em Santa Fé

Regina em Santa FeSer expatriada é o meu estado natural“, é assim que se auto-descreve Regina Scharf, uma jornalista brasileira que já morou em Paris, mas há 6 anos se encontra em uma das cidades mais alternativas dos EUA, Santa Fe.
De forma sensata e sem fantasia ela nos conta sua história…:

– Nome:
 Regina Scharf

– Onde nasceu e cresceu?
São Paulo

– Em que país e cidade você mora?
Santa Fe, New Mexico, EUA
Regina em Santa Fe

– Você mora sozinho ou com sua familia?
Sou casada com um norte-americano e temos uma filha de quatro anos.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Seis anos

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?
Sim, em Paris, por dois anos.

– Qual sua idade?
45

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Eu sempre gostei de viajar e contemplo a ideia de morar fora desde a infância. Sou neta de imigrantes e tenho família em três continentes – ser expatriada é o meu estado natural.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Não, por ter me casado com um norte-americano.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Tenho seguro (a um custo que me parece similar ao que eu pagaria no Brasil) e não foi difícil obtê-lo ( mas tenho certeza que seria se eu tivesse alguma doença crônica ou fosse mais velha).

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Eu sou jornalista e já tinha uma carreira bastante desenvolvida no Brasil quando decidi me mudar para os Estados Unidos. Por isso, trouxe meu trabalho comigo. Escrevo para meia dúzia de revistas brasileiras (inclusive Exame, Planeta e Página 22) e blogs. Dou consultoria na área ambiental, minha especialidade, e, no momento, também estou trabalhando num projeto de educação das Nações Unidas. Tenho, também, um blog em inglês, o Deep Brazil – Way Beyond Carnival , que oferece informação de qualidade que vai além do que se noticia sobre o país no Exterior.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
De certa forma, mudei, pois antes trabalhava na área de riscos socioambientais do Banco Real (meu primeiro emprego no setor financeiro, após anos trabalhando na mídia). Mas continuo na área ambiental, minha especialidade.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Eu já tinha diplomas de proficiência em inglês bem antes de me mudar para os Estados Unidos. Que o domínio do idioma local é essencial, nem se discute. Ele é fundamental para se trabalhar, participar da vida local, resolver problemas burocráticos, fazer amigos. A menos, claro, que você vá para a Holanda ou outro país onde todos falam inglês, além da língua local. E, mesmo nesses casos, é problemático não entender a língua local – você não consegue, por exemplo, participar de conversar ou entender o que se fala no rádio ou na televisão. Isso pode deixá-lo muito vulnerável e limitado.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Os Estados Unidos, apesar de todos os problemas, continuam sendo um país com alta qualidade de vida – pelo menos para quem tem um ganha-pão. Vivo numa cidade de apenas 70 mil pessoas com uma comunidade brasileira muito pequena – mas é uma cidade muito liberal, alternativa, e onde a cultura brasileira (incluindo capoeira, samba e Santo Daime) está muito presente. De um modo geral, os brasileiros são benquistos, mas isso nem sempre é verdade quanto a outros imigrantes, como os mexicanos. Acredito que em outras partes do país a comunidade brasileira registra problemas, especialmente envolvendo aqueles que não imigraram legalmente e que, por isso, enfrentam dificuldades adicionais.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Tenho uma filha de quatro anos nascida nos Estados Unidos – acho que os problemas de adaptação poderão ocorrer, um dia, no Brasil, não em seu país natal. Ela estuda numa pré-escola privada – são raras as escolas públicas para essa faixa etária na minha cidade e elas oferecem poucas horas semanais de ensino. Além disso, são consideradas de baixa qualidade.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Sim, claro, o expatriado sempre sente saudade de pessoas, determinados alimentos que não consegue encontrar no mercado local, certas paisagens ou estabelecimentos comerciais que não têm equivalente, certos programas de tevê ou rádio. Também sente falta do jeito de vestir e da forma como as pessoas se relacionam. Tudo, absolutamente tudo, muda de um país para o outro, e você tem de se adaptar. Para o bem e para o mal.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Quem tem filhos pequenos tem um cardápio relativamente restrito de atividades. Vou a parques, festas nas casas de amigos, ao mercado de produtores locais, às montanhas, a livrarias, ao centro da cidade (onde sempre há atividades culturais, como shows gratuitos ou galerias de arte).

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Estamos pensando em nos mudar para outra cidade norte-americana que tenha melhores escolas e hospitais, e mais oportunidades de trabalho para o meu marido, que é iluminador de cinema. Mas o Brasil não foi totalmente descartado dos nossos planos. No futuro, pensamos em passar parte do ano no país.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?
Moro numa casa que meu marido já havia adquirido antes do nosso casamento. Santa Fe é uma cidade considerada cara, mas a crise financeira barateou bastante o mercado. Com 250 mil dolares você provavelmente consegue comprar uma casa simples, não muito bem localizada, com dois quartos.

– Qual o custo de vida?
Na minha cidade, acho que 3 mil dolares é o minimo recomendável (os custos com planos de saúde são altos e um aluguel de uma casa simples provavelmente sairia entre 700 e 1.300 dólares). Mas, claro, as pessoas se viram como podem, e um corte nos gastos com saúde, educação e lazer poderia abaixar esse valor.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Ser estrangeiro, por si só, tem suas dores e delicias, que ilustrei em um dos meus textos mais recentes: Imigração não é Bolinho (http://pagina22.com.br/index.php/2010/03/imigracao-nao-e-bolinho/). A primeira vantagem que vejo é a relativa segurança da minha cidade, se comparada a São Paulo. Sinto-me tranquila andando pelas ruas, mesmo à noite e raramente vejo sinais de violência. Mas, friso, a diferença é apenas relativa – tivemos coisas roubadas de nossa casa três vezes em seis anos, apesar de vivermos num bairro razoavelmente bom e central. Além disso, um exibicionista invadiu meu quarto quando minha filha tinha uma semana. Ele não nos tocou e fugiu quando meu marido ouviu meus gritos, mas serve de indicador de que os riscos existem mesmo em um lugar pacífico.
Tive relativamente pouca experiencia com o sistema de saúde, mas ela tem sido boa. Dei à luz num hospital público (na época não tinha plano de saúde e os custos foram relativamente baixos, uns 5 mil dólares, mas a qualidade do serviço foi ótima). Também acho boa a qualidade dos dentistas locais – talvez um pouco mais caros que os brasileiros, mas nem tanto.
Vale lembrar, porém, que as minhas opiniões se referem a Santa Fe – uma cidade pequena pouco típica, inserida num estado pobre do sul do país.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
1) Aprenda a língua. Isso, claro, vale para qualquer país para onde você queira imigrar. Vale até para aqueles que vão se mudar para Portugal. Eu escrevi recentemente (30 words that separate Brazil from Portugal) sobre as muitas diferenças entre o Português do Brasil e de Portugal, capazes de criarem muita confusão.

2) É mais fácil falar do que fazer, mas eu realmente recomendo que você evite viver como clandestino. Além de não ter nenhum direito, vive com uma espada sobre a cabeça, correndo risco de ser pego. E o círculo está se fechando cada vez mais. Um exemplo: o meu estado, New Mexico, é dos poucos que aceita dar carteira de motorista para quem está no país de forma irregular, mas a nova governadora está decidida a acabar com isso.

3) Procure o community college da sua cidade, uma escola que geralmente tem mensalidades a custos bastante reduzidos e que pode ajudá-lo a se integrar ao mercado de trabalho e aprender a língua. Nunca estudei na unidade da minha cidade mas sempre ouvi boas coisas a respeito.

4) Tente fazer amizades locais e evitar ficar fechado numa panela de brasileiros. Isso o ajudará a aperfeiçoar o idioma e a aprender a viver conforme as regras do jogo local.

5) Se possível, avalie atentamente se você está preparado para o clima da cidade que escolheu. Os Estados Unidos têm uma variedade climática muito maior do que o Brasil. Alguns lugares são gelados boa parte do ano; outros ficam acima dos 30 graus centígrados o ano todo. Pior: alguns têm verões esplendorosos e invernos úmidos e frios, como o norte da costa do Pacífico. Se você visita a região no verão, pode achar tudo maravilhoso. Decide se instalar e, com o passar dos meses, descobre que o céu fica encoberto e cinz a maior parte do ano e desenvolve uma baita depressão. Enfim, se você tiver opção, busque um clima que você tem condições de enfrentar.

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiencia que esta vivendo nesse país, qual seria? OK (nem mais, nem menos)

4 Respostas

  1. Olá Regina!
    Gostei da forma clara e direta da sua entrevista. Sem ilusões e realista.
    Vou dar uma olhada no seu blog , vai ser ótimo já que estou estudando.
    Bjokas

  2. Ola bom dia,

    Sempre passo por aqui, acho bem criativa a idéia de dividir a experiência de brasileiros que vivem no exterior conosco
    Estou na Noruega a pouco tempo e obtive segurança com os relatos de outros brasileiros que vivem pelo mundo a fora. bjs

  3. Que bom ver a Regina por aqui ! O blog dela é excelente, sempre passo por lá.

  4. […] Do you belong to one of these groups? I am a brazuca, myself, and described my expatriate experience in other websites (in Porutugese): the post Imigração não é bolinho, on Página 22, and an interview on Entrevistando Expatriados. […]

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