Minha vida suburbana em uma college town americana

Eliana nos EUA Eliane, conheceu em São Paulo um gringo viajante, poliglota e insistente que a pediu em casamento no segundo encontro e mudaria para sempre o rumo de sua vida. Teve o casamento dos sonhos, largou a família e um emprego estável na Petrobras para enfrentar o desafio de ser esposa, dona de casa e estrangeira nos subúrbios de uma pequena e charmosa cidade universitária no frio meio-oeste americano.   

– Nome:
Eliane Pechim

– Onde nasceu e cresceu?
Nasci no interior de Minas Gerais, mas fui criada no ES e morei 8 anos em São Paulo. Eu me considero capixaba e não aceito ser chamada de outra forma. rs

– Em que país e cidade você mora?
Moro em Ann Arbor (Michigan), EUA

– Você mora sozinho ou com sua familia?
Moro com meu marido

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Há dois anos e um mês

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?
Nunca

– Qual sua idade?
35 anos

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Meu sonho sempre foi estudar na europa e retornar ao Brasil depois, mas por razões financeiras isso nunca foi possível. Eu nunca tive vontade de morar nos EUA, vim parar aqui por puro acaso, porque meu marido é daqui, mas quando nos conhecemos o que pesou mais na minha decisão de vir morar nos EUA com ele foi o aspecto segurança e a educação de nossos futuros filhos.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Eu vim para os EUA com o Visto K3 (visto de cônjuge). Não é difícil conseguir o visto se sua relação é verdadeira e você pode provar isso, mas é preciso paciência para esperar a finalização do processo. O meu durou 7 meses, entre a entrada dos papéis e minha mudança definitiva para os EUA. Eu agora tenho o Green Card.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Sim, é muito difícil viver nos EUA sem algum tipo de seguro de saúde. Fui incluída no seguro do meu marido antes mesmo de eu mudar para os EUA. Não foi difícil obtê-lo porque a empresa em que ele trabalha já prevê esse tipo de inclusão para outros membros da família, mesmo estando eu naquela época ainda no Brasil

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Parei de trabalhar quando mudei para cá. Sou dona de casa aqui. Vivemos do trabalho do meu marido.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Sim, eu já falava inglês quando mudei para os EUA, mas ao chegar aqui sempre dá para aprimorar o vocabulário e  melhorar a pronúncia porque a gente chega aqui achando que sabe tudo e pronuncia as palavras corretamente e então descobre que ainda tem muito que aprender. Acontece principalmente com gírias e expressões coloquiais. Por mais que você assista a filmes e seriados sem legenda e sua escola de inglês te ensine algumas dessas expressões, só quando vem morar aqui é que você aprende de fato como e quando usá-las, mesmo porque elas mudam de região para região. Acho muito difícil a vida de uma pessoa que vem morar aqui e não tem interesse em aprender a língua local porque ela vai viver isolada e limitada em seu cotidiano. Algumas comunidades oferecem aulas de inglês a um baixo custo ou mesmo a custo nenhum. Pesquise em escolas públicas e universidades da região.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Eu adoro viver em Ann Arbor, não sinto falta nenhuma de viver num grande centro urbano. Ann Arbor possui excelente infra-estrutura e não nos falta nada aqui. Por ser uma cidade universitária há estudantes e professores do mundo inteiro, o que torna a cidade um lugar cosmopolita, liberal e muito receptiva a estrangeiros. O nível de escolaridade dos residentes é mais elevado que a média nacional. Os índices de violência são pífios, as ruas são limpas, há muitos parques, restaurantes excelentes e uma vida artística e cultural vibrante. Os locais são muito cordiais, sempre demonstrando interesse em conhecer melhor sua cultura. Nunca ouvi falar em atos de racismo escancarados em Ann Arbor. Em uma cidade de perfil tão liberal como esta não acredito que isso seria sequer tolerado.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Não temos filhos.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Do Brasil em si não sinto falta porque sou muito desapegada de lugares. Gosto, me adapto, mas não consigo me apegar. Se tiver de mudar amanhã para outro lugar não vou sofrer. Sinto sim uma saudade absurda da minha família, mas viajo duas vezes por ano ao Brasil para visitá-los. No começo senti muita falta de produtos brasileiros, mas com o tempo a gente vai se acostumando. Nos supermercados encontro praticamente tudo de que preciso para fazer o tipo de comida de que eu gosto. Também aprendi a cozinhar para não ter de comer a comida americana, que eu detesto. Do Brasil também sinto falta das frutas. As daqui têm gosto de papel. Encontra-se frutas tropicais, mas elas além de caras geralmente não são gostosas.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Como Michigan é um estado muito frio, tudo aqui é seasonal, ou seja, certos programas somente podem ser feitos no verão. Nesta estação as pessoas aproveitam os dias ao ar livre, seja em um barbecue em casa com a família e os amigos, seja nos muitos parques, clubes e lagos que temos na cidade, onde é possível fazer piquenique, praticar esportes e percorrer o Huron River de barco, canoa ou caiaque. O inverno aqui é longo e rigoroso. As opções de lazer nesta estação são os inúmeros restaurantes de gastronomia local e internacional, os cinemas, o teatro, os espetáculos e os bares. Há também festivais gratuitos de arte e cinema. A diferença maior que vejo entre os EUA e o Brasil está na quantidade de tempo que os americanos dedicam a família. Eles não têm uma carga horária de trabalho tão puxada quanto a nossa, o que permite a eles chegarem em casa mais cedo e passar mais tempo com a família. Dedicar um tempo para o lazer para eles é sagrado. Não costumam viajar com a mesma frequência que os europeus, por exemplo, mas estão sempre fazendo algo em família, seja em casa mesmo, seja em algum programa ao ar livre. Aqui em casa o que mais fazemos é viajar. Viajamos praticamente todo mês para algum lugar. Mas quando estamos na cidade gostamos de jantar fora, ir ao cinema, ao parque e fazer passeios pela região e outras cidades de Michigan.
Eliana nos EUA

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
No momento não temos planos de mudar daqui e é provável que eu vá viver nos EUA por muitos anos, o que está ótimo para mim porque eu gosto de viver aqui, mas sempre conversamos sobre comprar uma casa de veraneio na europa ou mesmo mudarmos definitivamente para lá quando estivermos mais velhos. Temos alguns países em vista. Como o mercado de trabalho do meu marido está em Michigan, seria impossível fazer essa mudança agora, então por enquanto nos contentamos apenas com as viagens de férias para a europa.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?
A casa em vivemos é própria. Sim, é muito comum comprar imóveis nos EUA e assim como acontece no Brasil a maioria das pessoas compra imóveis financiados. O preço de um imóvel aqui vai variar do lugar e se é apartamento, condo ou casa. Os impostos residenciais são altos na maioria dos estados americanos e não é incomum famílias migrarem para estados onde esses impostos ou são mais baixos ou simplesmente inexistem. Com a recente crise econômica os EUA o mercado imobiliário foi um dos mais afetados, fazendo com que o preço dos imóveis para compra e aluguel caíssem vertiginosamente. Nessa crise, muitas pessoas perderam seus empregos e tiveram de entregar suas casas para o banco porque não conseguiam mais honrar o pagamento do financiamento. A crise expos também um antigo problema da classe média e média alta americana: o hábito de comprar mais carros, imóveis e outros bens do que eles realmente precisam e podem bancar. Por outro lado, este pode ser um bom momento para comprar imóveis, já que os preços estão desvalorizados.

– Qual o custo de vida?
Em Ann Arbor, eu li certa vez que uma família típica de classe média-média é formada por pai, mãe e 3 filhos, fazendo entre $45,000.00 e $50,000.00 por ano. Não é um salário elevado, mas está dentro da média nacional. Profissionais de grandes empresas que têm curso superior e experiência fazem entre $85,000.00 e $90,000.00. Com esse salário é possível viver de forma bastante confortável. Já a classe média-alta abrange uma minoria que tem um salário anual que ultrapassa a barreira dos $100,000.00, sendo geralmente formada por profissionais altamente especializados, que alcançaram o nível máximo de escolaridade, ocupam cargos de gerência e/ou trabalham em multinacionais. Esse nível de salário permite, por exemplo, custear viagens de lazer e escola particular para os filhos, que aqui nos EUA custa muito caro. Em geral eu diria que aqui, ao contrário do que acontece no Brasil, é possível ter uma vida confortável mesmo não ganhando muito. Certos bens a que a classe média-baixa e média-média americana têm acesso só é acessível a brasileiros de classe média-alta pra cima. Ter tv de plasma e dois carros na garagem, por exemplo, aqui não é luxo. O contraste entre ricos e pobres é muito menor nos EUA, o que significa que um americano não precisa ter um super salário para viver de forma confortável como acontece com os brasileiros.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Em geral eu diria que sou muito feliz aqui. Vivo numa cidade segura, limpa, organizada, onde as pessoas são respeitosas e me tratam bem. Não preciso de muito mais do que isso para me sentir confortável em um lugar. Não gosto do falso puritanismo das mentes americanas e acho que eles são extremamente ignorantes em relação a tudo que não faça parte da cultura deles. Gosto do senso comunitário deles. Aqui todo mundo se ajuda. Você não vai ligar o som no maior volume tarde da noite porque não gostaria que seu vizinho fizesse o mesmo com você e a tolerância para esse tipo de coisa aqui é zero. Cada um mantém seu quintal livre de sujeira e entulhos porque sabe que isso valoriza o preço dos imóveis do bairro e todo mundo ganha agindo assim. As comunidades estão sempre atentas ao trabalho dos líderes comunitários, da polícia e do prefeito. E quando é necessário se unem e cobram.
Eliana nos EUA

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
Nunca vou entender certas coisas, como comer abacate como verdura e comer ovo, linguiça e bacon no café da manhã. Tem também os contrastes. Acho curioso que eles enviem cheques nominais pelo correio para pagar contas em vez de usar sistemas eletrônicos de pagamento ou depósito em conta como fazemos no Brasil e eu considero muito mais inteligentes e práticos. Outro fato curioso é que nos restaurantes antes de você pedir a sobremesa eles já estão trazendo a conta e ainda falam para você não ter pressa. Por último, tem as crianças que para andar de bicicleta lá fora vão todas paramentadas de capacete, joelheira, tornozeleira e calça comprida.

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil?
Novamente, o senso comunitário. Acho maravilhoso o fato de que aqui as pessoas estejam tão envolvidas no bem-estar de seu bairro e sua cidade. No Brasil tendemos a acreditar que é inútil se comprometer com alguma causa porque ninguém vai fazer nada mesmo. O modelo de sociedade americano prova o contrário, que algo geralmente é feito justamente porque a comunidade se envolve, compromete-se e cobra.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Não venha para viver ilegalmente. Você não será respeitado, dificilmente aprenderá a língua, viverá isolado e com essa crise econômica provavelmente nem ganhará dinheiro. Pense no futuro. Se você fica aqui ilegalmente, retorna ao Brasil e no futuro tem a chance de retornar legalmente enfrentará um longo, cansativo e frustrante processo de pedido de perdão para que sua entrada neste país seja liberada. Outra sugestão: aprenda a língua. As pessoas que eu conheço aqui que não falam a língua vivem de forma super isolada e dependente. Por fim, mas não menos importante: pare de comparar. É impossível ser feliz em qualquer país se ao chegar nele você estiver procurando o mesmo estilo de vida, as mesmas coisas e os mesmos costumes que tinha no Brasil. Cada país e cultura tem suas peculiaridades, suas coisas boas e ruins. Aceite sua nova realidade, experimente coisas, sabores e lugares, não tenha preconceito e tire o melhor disso. Abrir-se para uma nova cultura não significa de forma nenhuma ter de abrir mão da sua, relacione-se com brasileiros se quiser, mas também tente fazer amigos locais. Esse é o único jeito que conheço para se adaptar e ser feliz em seu novo país.

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiencia que esta vivendo nesse país, qual seria?
Desafiante

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
No meu blog pessoal (http://www.elieverywhere.com/) eu conto um pouco da minha experiência de expatriada e do meu cotidiano aqui. No meu Blogroll há links para outros blogs de brasileiros como eu que vieram se aventurar no exterior.

12 Respostas

  1. Muito boas as respostas, Eliane. Voc~e esclarece bem seus pontos de vista. Para quem tem interesse em morar nos EUA, aprendeu mais sobre o país e seu povo.
    beijos!

  2. Boa entrevista Eli! bjos!

  3. Ola, amiga! ja~nos conhecemos, nao e~mesmo: Parabens pela entrevista!
    Agora… vc nem imagina o que os tailandeses comem de cafe da manha! rsrsrsrs!
    Bjka!

  4. Eliane, que bela entrevista. Gostei de te conehcer mais um pouquinho.

    Bjao

  5. Essa mulher é linda demais, gente. E muito inteligente. Tenho o maior orgulho amiga e madrinha de casamento dela.🙂 Como sempre, ela foi perfeita.
    Bjo, Eli.

  6. Eliane
    Adorei …. conhecer mais um pouquinho de voce!!! Beijos

  7. Eu adorei essa entrevista, Eliane! Otimas informacoes e posicionamento bem coerente. Entrevista que situa ate quem ja vive aqui ha algum tempo. Voce como sempre otima!

    Super beijo!

  8. Adorei as respostas e me tranquilizou bastante!
    Em fevereiro estou me mudando pra Ann Arbor, vou morar aí por um ano, ganhei uma bolsa de estudos e vou fazer um ano de odontologia na universidade de michigan

  9. Muito legal nos proximos 4 anos pretendo ir para os Estados Unidos (é meu sonho) e eu vou ficar legalmente e ja tou aprendendo o idioma seguindo seus conselhos que são muito bons

  10. Quem é acostumado a ler reportagens de viagens de vários blogs e ficam até mesmo irritados com as respostas das pessoas sobre as novas realidades por eles encontradas quando vão morar fora, se encanta com as respostas dadas pela Eliane.

    Parabéns pelas respostas. Que mostram que você é uma pessoa esclarecedora, imparcial, focada e acima de tudo muito inteligente.

    Apenas gostaria de pedir a você sobre escolas ou universidades que ofereçam cursos de inglês a um custo baixo ou até mesmo grátis para pessoas que buscam o aprendizado do inglês.

    Boa sorte e muitas felicidades a você Eliane e seu marido.

  11. Gostei da entrevista, mas uma salada verde com abacate eh uma delicia!! e uma salsa de yogurte encima entao….bao que so vendo hehehhe e la da onde venho interiorzao o cafe da manha é com ovo, linguica, queijo derretido na chapa e as vezes se nao tem pao vai virado mesmo de torresmo com cafe preto!!!! delicia maravilhows hehehehe

  12. Olá Mirella. Gostei das dicas. Estamos planejando nossa ida para esta cidade, que todos falam bem, no final de 2013. Poderia me dizer qual é o custo de vida? Obrigado.

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