Na terra de Marco Polo

Patricia e Fábio, recém-casados e com uma proposta de emprego para ele na China, empacotaram suas roupas, deixaram sua nova casa e partiram para encarar uma nova vida na grande Shanghai. Contando apenas um com o outro, aprenderam a entender essa nova cultura, apesar de alguns percalços e dificuldades, hoje eles se adaptaram a misteriosa China.

– Nome:
Patricia Bonadia

– Onde nasceu e cresceu?
Nasci e cresci em Campinas, interior de São Paulo.

– Em que país e cidade você mora?
Atualmente moro em Shanghai, China.

– Você mora sozinho ou com sua familia?
Moro com meu marido.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Estamos fazendo dois anos de China.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?
Nunca havia morado fora antes.

– Qual sua idade?
29 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Meu marido recebeu da empresa dele a proposta de morar no exterior pela empresa multinacional onde já trabalhava, que tem várias unidades pelo mundo. Da primeira vez que ele morou fora pela empresa, em Chicago-EUA, erámos namorados e nao pude ir junto, mas dessa vez, já casados, tomamos a decisão em conjunto, com a garantia que estariamos juntos, podendo apoiar um ao outro. Mesmo sendo um país tao distante com tantas diferenças culturais, abraçamos a causa e nos mudamos para a China para um contrato de dois anos.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Todos os vistos de residência e de trabalho foram expedidos pela empresa. Mas sei que para conseguir o visto de trabalho na China é necessário ter tido uma entrada no país, mesmo que com visto de turista, para depois a empresa entrar com o visto de trabalho válido por um ano.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Todos os cuidados com saúde a empresa do meu marido é responsável.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Sim, depois de chegarmos em Shanghai, passei alguns meses cuidando da nossa adaptação ao novo lar. Procurei ajeitar a vida com relação aonde fazer supermercado, onde comer e o que comer, investi meu tempo para aprender o idioma e a entender melhor essa cultura que é tao diferente da nossa. Depois de quase cinco meses decidi procurar um trabalho na minha área, arquitetura, o que nao foi muito difícil, uma vez que um país como a China, que tem um desenvolvimento tão acelerado e querendo ter o mundo ocidental de olhos para ele, uma arquiteta ocidental é muito bem vinda em diversos setores do ramo da construção. Nossa renda familiar é baseada na soma do meu trabalho e, é claro, na de meu marido (motivo pelo qual estamos aqui).

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Não mudei de área depois de minha chegada a China. A oferta de emprego para minha área aqui é bem promissora.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Não posso dizer que exatamente falo a língua local, eu tento. O mandarim é um idioma que exige anos de estudos, mesmos os locais ainda aprendem diariamente novas palavras e ideogramas. O método de leitura é muito diferente e beira a complexidade, coisa que uma mente totalmente ocidental nao consegue compreender a curto prazo. Para aprender o idioma local é preciso se entregar a cultura local, para uma melhor compreensão. Eu penso ser fundamental tentar falar o idioma local, além de ser uma forma de mostrar respeito ao pais que te recebeu, te abre muitas portas e conhecimentos que se falando só o inglês nao conseguimos alcançar. O que sinto um pouco é que, algumas vezes, os chineses nao ajudam os estrangeiros a falarem, eles riem com muita facilidade, o que acaba inibindo qualquer um de continuar falando. O mandarim é um idioma cheio de tons e pequenas nuances, que qualquer deslize gera a total incompreensão do interlocutor, mas sinceramente acho que os chineses poderiam se esforçar mais para entender os estrangeiros falando o mandarim.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
A China é um país, como já disse, muito diferente do nosso, mas no final acabamos encontrando algumas similaridades, talvez para conseguirmos nos adaptar mais facilmente. Os costumes dos chineses podem ser considerados retrógrados para muitas pessoas, catarrar nas ruas, buzinar para tudo e todos, comer de boca aberta, cozinhar na calçada pode ser muito assustador a uma primeira visão. Mas depois de conseguir enxergar além disso, podemos ver um povo que sofreu muito pela fome, pelas guerras, pelas lutas por terra e acabam criando dentro de seu convívio seu pequeno país. As relações interpessoais são muito importantes aqui, é o que chamam de Guanxi. Ou você faz parte do círculo de amizades ou então você é ignorado. É importante que, como expatriado, você crie seu círculo de amizades com os expatriados que dividem os mesmos problemas que você e, é lógico, com os chineses, que podem resolver muitos de seus problemas. Dentro do meu ambiente de trabalho, com a maioria chinesa, foi um pouco difícil ganhar a confiança deles, mas uma vez dentro do círculo deles, você se torna família e é muito bem tratado e querido. A sensação que tenho é que os chineses sabem do Brasil o mesmo que sabemos da China. Que é um grande país, longe e alguma coisa da cultura. No nosso caso, futebol, eles adoram e sempre que digo que sou brasileira, escuto “Lonaldinho”, Kaká. Principalmente os homens por volta dos 30-40 anos. Mas muitos não tem idéia do que se tem no Brasil.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Nao tenho filhos, mas Shanghai é repleta de escolas internacionais, com a grade curricular em ingles e mandarim. Apesar de caras sao uma boa solucao para casais estrangeiros com filhos em Shanghai.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Sinto muitas saudades da familia, com certeza. A distancia eh muito grande, o que dificulta qualquer um de nos fazerem uma visitinha. Os alimentos sem dúvida são outra coisa que sentimos demais. Mesmo nos supermercados estrangeiros eu nunca achei nada que viesse do Brasil, a nao ser erva para chimarrão (para a gauchada ta bom!). Mas em Shanghai é muito popular uma churrascaria chamada Latina. Eles tem picanha (tá bom, quase uma picanha), feijão preto, entre outras coisas da terrinha, para uma churrascaria na China é classe A, mas se fosse no Brasil seria B ou C… (hehehe)

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
No Brasil temos muitos amigos, fazemos muitas festas, churrascos, sempre estamos em contato constante com muita gente, o tempo todo. Já aqui a situação é outra, contamos basicamente um com o outro. Se toma tempo para encontrar pessoas com as mesmas afinidades que as suas. A princípio não quis me envolver apenas com brasileiros, pois seria muito fácil para nós nos fechar em um gueto. Procuramos aprender com a diversidade cultural e acabamos nos encontrando em uma leva de amigos de todas as partes do mundo. Ainda fazemos nossos churrascos de finais de semana, mas agora com alguns toques chines, coreano, alemão. Saímos para jantar com amigos, vamos a bares, seguimos uma vida diversa. Mas o que sinto é que os chineses não tem o costume de sair como os ocidentais, portanto os bares, restaurantes que frequentamos acabam tendo mais estrangeiros do que locais. Os chineses são bem caseiros e gostam de estar sempre com os seus.

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Para o futuro queremos retornar ao Brasil. Temos certeza que para ele voltaremos, porém o trabalho de meu marido possibilita ainda algumas aventuras internacionais, mas isso, só o tempo vai nos dizer onde e quando.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?
Não compramos e essa não é uma pratica comum por aqui. Normalmente os locais para estrangeiros são alugados pela empresa, mas o funcionário que escolhe o local, de acordo com o budget de cada um. Aqui tem de todos os níveis de valores, muitos dos imóveis para locação já vem mobilidado, o que facilita a vida de qualquer estrangeiro. Os valores podem variar de R$600,00 a R$15.000,00, depende do local, do tipo de contrato, do tamanho, etc.

– Qual o custo de vida?
O custo de vida de Shanghai pode ser muito barato (para o padrão brasileiro) ou muito caro (para o mesmo padrão), tudo depende do que voce quer. Comprar comida no supermercado local é muito mais barato, porém não tem nada daquilo que estamos acostumados.

O supermercado de artigos importados tem preço de importados do Brasil, mas a diferenca é que aqui compramos basicamente só artigos importados, quanto que no Brasil não. Restaurantes chineses, comida de rua, pode ser muito barato, mas nao é qualquer um que consegue comer as comidinhas daqui. Jantar em restaurantes ocidentais paga-se o preço, uma vez que a maioria deles são regidos por ocidentais, o que encarece o preço. Restaurantes de comida ocidental com chef chinês é comida chinesa com toque ocidental! (hehehe)

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Não quero ser injusta com a China, mas não foi muito fácil adaptar. A minha primeira dificuldade foi não ter um carro, até porque dirigir em Shanghai é só para loucos ou corajosos ao extremo.

O trânsito é caótico, não pelo trânsito, mas pelos motoristas. Eles buzinam o tempo todo, não respeitam o pedestre, aliás é a lei do maior, o ônibus não respeita o carro, que quer passar em cima da moto, que quer atropelar a bicicleta, que buzina para o pedestre e quer andar na calçada. Um caos!
A comida foi outro problema. Por pior o gosto que seja a comida, sempre se tem um motivo para come-la, ou porque faz bem para a pele, ou faz bem para o cabelo, ou faz bem para o dedão do pé. Comida gostosa para mim, só a de casa mesmo. Aprender o idioma e ser apto a falar é outro desafio que não é ajudado pelos chineses, além de rirem compulsivamente quando tentamos falar, eles não tentam compreender e ajudar, é mais fácil negar sempre do que se esforçar a entender.
Pontos positivos tem vários. É muito bom ver a força de um país em desenvolvimento se desenvolvendo. Muitas obras para todos os lados, o progresso do país realmente acontecendo. O reconhecimento do conhecimento que temos e que podemos ensiná-los (lógico que vai ter um momento que eles não precisarão mais de ocidentais, mas por enquanto está tudo bem!). A cultura milenar do país em muitos momentos preservados, olhar para o passado para entender o futuro. O sistema de transporte público ameniza a falta do carro. Uma linha de metro inagurada a cada seis meses no período que estou aqui. (E o metro de São Paulo… ai ai ai)

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
O que acho curioso nesse país é a impaciência chinesa. Sempre escutamos falar da famosa paciência chinesa, mas aprendi aqui que é preciso ter paciência para suportar a impaciência dos mesmos. O fato de ser muita gente (muita gente mesmo) o tempo todo, faz com que você acaba ultrapassando os limites da cordialidade para não ficar para trás. Ao entrar no elevador, todos apertam compulsivamente o botão para fechar a porta, mesmo que tenha alguém se aproximando da porta. Porque? Porque se você não tentar fechar a porta, vai entrar mais um, dois, três, dez, quinze, até o elevador apitar por excesso de carga. O mesmo acontece no metro, na loja, no aeroporto, em qualquer lugar público. Ou você garante o seu espaço ou vão tomá-lo de você.

Chines dorme. Dormem em qualquer lugar com uma facilidade incrível. Dormem de cócoras, dormem de pé, dormem sentados, dormem no restaurante, dormem no trabalho, dormem no trem, dormem no barulho, dormem na praça, simplesmente, dormem!

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil?
O sistema público de transporte da China é invejável. Uma malha ferroviária deslumbrante, tanto para carga, quanto para passageiros.

Trem magnético? Fácil, tem um que conecta a cidade com o aeroporto internacional, fazendo 40km virarem 6 minutos, a uma velocidade de 400km/h. Linhas de metro inaguradas a cada seis meses, novos trens rápidos conectando as principais cidades da China ao interior. Realmente acho que o Brasil poderia aprender com os chineses que para desenvolver um país é necessário conectá-lo.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Para os novos residentes na China, digo para ter bom humor e mente aberta. Não tentar enxergar a China com os olhos de um brasileiro, e sim tentar entender a cultura, os porques. Se fizer isso, só tenho a dizer, aproveitem, divirtam-se e boa sorte!

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiencia que esta vivendo nesse país, qual seria?
Construtiva

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
www.patanachina.com – meu blog pessoal onde conto minhas desventuras em terras asiáticas
www.smartshanghai.com – site com todas as dicas de restaurantes, shows, bares de shanghai
www.ctrip.com.cn – para reservar hotéis, comprar passagens aéreas na China
www.expo2010brasil.com.br – portal do Brasil na Expo World 2010

5 Respostas

  1. Muito bom…….

  2. É isso aí Pata, tem que mergulhar de cabeça na cultura do país. Isso não é perder a identidade cultural, e sim acrescentar experiências e novas vivências. E voltar maior do que saiu!

  3. Muito legal a entrevista! Nossa, essa dos chineses rirem na sua cara porque não te entendem, é de matar né…rs… Moro em Zürich e aqui pelo menos neste aspecto quando a maioria das pessoas percebe que vc. está se esforçando pra falar alemão, elas sempre te ajudam, sorriem para que você se sinta mais a vontade e perca o medo de falar. O importante mesmo é tentar absorver o máximo da cultura para conseguir viver em um país tão diferente do nosso.
    Boa sorte e tudo de bom!!

  4. Patricia Bonadia
    ola ,gostaria de motar uma empressa de exportacoes de grande porte s puder m ajudar eu agradeceria muito
    sujapa1982@hotmail.com m add
    muito obrigado

  5. Olá Patrícia,
    Meu nome é Ana Paula. Sou estudante de Adm na ESPM.
    Escrevo uma pesquisa acadêmica sobre a adaptação cultural nas organizações de brasileiros expatriados na China. Em breve estarei em Xangai e Beijing (27 de junho).
    Gostaria de convidar o seu marido (no caso entendi que você o acompanha) para participar de minha pesquisa respondendo um questionário (enviado via e-mail) ou, se ele tiver disponibilidade, através de uma entrevista para que possa conhecer mais a fundo sua experiência de adaptação.

    Ressalto que as os resultados desta pesquisa são estritamente acadêmicos.
    Por favor, se possível divulgue aos seus colegas e amigos brasileiros para que eu possa alcançar um número grande de entrevistados.

    Desde já agradeço à disponibilidade.
    Forte abraço.
    Ana Paula

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