O mundo é a minha pátria

Lucy Leite na EspanhaApesar de não planejada, a vida de Luci sempre a levou para fora do Brasil. Estudou inglês desde os 8 anos, aos 17 foi por alguns meses para Inglaterra e depois de formada, seguiu para Argentina. Atualmente reside na Espanha, continua seguindo sua profissão de tradutora e acredita que há diferenças entre simplemente residir ou realmente viver no exterior…

Nome: Luci Leite

Eu nunca planejei me mudar para o exterior, embora olhando para trás vejo que pequenas coisas que fazia desde a infância me levaram a isso. Aos 17 anos, depois de já estudar inglês desde os 8 anos de idade no Brasil, fui estudar por alguns meses na Inglaterra. Nunca pensei em morar lá realmente, adorei a experiência e nem queria voltar para o Brasil, mas tinha que fazer faculdade, ter uma profissão (porque esse negócio de fazer trabalhos em país alheio que eu não faria no meu, nunca foi a minha praia).

Voltei para o Brasil e fiz faculdade de Tradução e Interpretação, que era meu sonho de criança. Eu sempre gostei de conhecer culturas diferentes, idiomas, tradições. A tradução é um trabalho que vai muito além de passar um texto de um idioma a outro: se traduz uma cultura, uma ideia, e muitas vezes o que, inclusive, mal se pode traduzir. Então suponho que aí estava a base que me permitiu sair do meu país.

Meus namorados sempre foram brasileiros, mas meus maridos sempre foram estrangeiros. Que fique claro que foram dois apenas e espero ficar nesse número. O primeiro era argentino. Assim, fui parar em Buenos Aires e lá fiquei por 7 anos. O segundo, e atual, é espanhol e por ele eu vim parar na Espanha. Por ele e porque meu trabalho de tradutora me permitia: pude continuar com os meus mesmos clientes, com o mesmo trabalho, e ainda apareceram oportunidades mais bacanas dentro da minha profissão. Jamais teria saído para “tentar a vida” ou para fazer um trabalho que me deixasse infeliz: não acredito que exista algum amor que seja maior do que a felicidade da auto-realização. Não sou muito romântica.

A experiência na Argentina me mostrou que às vezes, mesmo quando você acha que está adaptado, o processo pode ser sofrido. Aprender a viver em uma cultura alheia tem suas dores e cada um lida com isso como pode. Eu abandonei o Brasil. Mesmo voltando uma vez por ano, eu me sentia totalmente argentinizada. Aprendi rápido o espanhol, todos me diziam que praticamente sem sotaque, enquanto meus amigos do Brasil tiravam sarro do meu portunhol.
Lucy Leite na Espanha
Além disso, demorei para fazer amigos na Argentina, algo insólito para mim. Os argentinos têm seus amigos do colégio e não estão acostumados a fazer novos amigos. Fazer faculdade (de Sociologia, desta vez) lá não me ajudou muito também: eles não fazem amizades com pessoas de idades muito diferentes. Só que os amigos que fiz ao longo daqueles anos são tão queridos quanto os que trago da infância. Os argentinos, quando chegam a te chamar de amigo, é porque você é amigo mesmo, não como o brasileiro que diz amigo para o cara que acabou de conhecer no bar. São denominações, apenas, mas a palavra “amigo” na Argentina tem um valor mais especial e essa é uma das coisas mais bonitas que aprendi lá.

A Argentina é ainda meu segundo país, porque morei lá dos 23 aos 30, anos fundamentais na formação de uma pessoa. Por isso me ofendo com os insultos aos argentinos (não com as piadas!), porque sei que a maioria das pessoas que fala mal deles não os conhece, porque é impossível conhecer “os argentinos” indo passar uma semana de férias lá, ou até mesmo um ano. Eles não se abrem tanto assim.

Num país alheio, longe da família e da sua cultura, aquela coisa cômoda que lhe é familiar e que você entende por viver nela desde pequeno, os amigos são a sua nova família. São eles que vão te introduzir à nova cultura e você termina vendo o novo país também com os olhos deles. Por isso não gosto de pertencer a comunidades de brasileiros que terminam não se misturando. Para muitos brasileiros que conheci, o exterior era apenas um lugar longe do Brasil, mas mantinham os mesmos hábitos, comiam o mesmo arroz com feijão, não se preocupavam com aprender e melhorar o domínio do idioma local. Sem dúvida é mais fácil estar com gente com quem você compartilha toda uma cultura, mas é certamente menos enriquecedor. O que vi e vejo muito por aí são pessoas que, só porque encontram um brasileiro, acham que podem ser amigos. Espera aí: você seria amigo dessa pessoa no seu próprio país? O que vocês têm em comum além do fato de ser brasileiro? Aliás, o que é ser brasileiro? Eu odeio axé e qualquer música de tenha a palavra “mãozinha”, pagode, carnaval, não tenho bundão, sou mais branca que a De Neve, quase não como arroz com feijão (mesmo quando vivia no Brasil), odeio a cultura do “se eu não bebo não me divirto”, há 13 anos vivo sem televisão. Sei que há milhares de brasileiros como eu, mas não me identifico como “brasileira”, nem como nada.

Por um lado, isso me permite andar por aí e viver onde eu quero e me sentir bem, por outro, há sempre aquela ausência de “identidade”. Aquilo que seria muito mais fácil ter e identificar: eu sou assim porque sou dali. Como vários estrangeiros afirmam, com o tempo, sua identidade é definida pelo próprio limbo identitário: você não é de nenhum lugar e, pior (ou melhor), se sente bem assim!

Eu nunca senti saudade do Brasil. Sinto saudade de pessoas queridas, mas tanto quanto eu sentia quando eu morava em São Paulo e não tinha tempo de me encontrar com amigos por causa da vida aloucada que se vive lá. Por isso, sinto tanta saudade do Brasil quanto da Argentina, porque sinto falta das pessoas que tenho esparramadas por aí. Então, tenho saudade de tomar um chá com a minha Cuma e a Re, tomar um café com a Dri, tomar mate com a Luísa, comer e tomar vinho com a Luli, andar no parque com a Paula, tomar uma brejinha com a Pri, ir ao cinema com a Ju, fazer jam sessions com a Lu, comer com os Romanos, sentar para bater um papo com a minha mãe, cantar com o Alê, almoçar com a minha mãe, meu irmão e minha cunhada, e assim por diante com todos os meus amigos mais queridos.

Se eu dia eu voltar a morar no Brasil estarei tão feliz quanto se eu morar em outro lugar. Sei que onde eu for, farei uma nova família, com novos amigos, e minha identidade se ampliará talvez em um limbo ainda maior.

Há um ano estou morando na Espanha e aqui já tenho pessoas queridas e já me sinto em casa. Porém, desta vez não abandonei o Brasil, principalmente porque a tecnologia me permite: falo com todos pelo Skype quando quero. Até baladinha marcamos já com minhas amigas, tomamos vinho juntas. Não é a mesma coisa, mas sem dúvida é melhor do que quando eu estava na Argentina que era caríssimo falar pelo telefone. Minha única dificuldade aqui é me adaptar à cidade pequena, mas isso seria igual se eu tivesse me mudado para uma cidade pequena no Brasil. Tendo morado apenas em São Paulo e Buenos Aires, morar em Múrcia, cidade com 400.000 habitantes (a 7a maior da Espanha), é bastante estranho e sofrível. Por outro lado, o custo de vida relativamente barato me permite viajar bastante e, como a cidade é tranquila, posso andar à noite sem problemas, coisa que adoro!
Lucy Leite na Espanha
Uma das perguntas no questionário para o “Expatriados” era sobre o respeito dos locais pelos brasileiros. Eu jamais tive problemas em nenhum lugar do mundo por ser brasileira. Lembro que na Inglaterra, quando eu era pequena, uma conhecida reclamava que era tratada diferente. Ela tinha deixado a faculdade de direito no interior de São Paulo para limpar hotel em Londres, ilegalmente, lógico. Será que um brasileiro é tão respeitoso assim com as pessoas que os servem? Não acho. Será que essa menina se respeitava, trocando uma profissão promissora por outra inferior? Veja bem: ambos trabalhos são igualmente dignos, como qualquer outro trabalho, mas um envolve um desenvolvimento pessoal e intelectual, enquanto o outro, não.

Viver no exterior, no país que for, é uma opção, principalmente no caso dos brasileiros, então ela deve ser enriquecedora. Senão, melhor ficar no Brasil. Outro dia conversava com a Jandira pelo telefone. Ela trabalhava em casa em São Paulo. Eu contava para ela: “Jandira, aqui eu não preciso pagar plano de saúde e sinto muita sua falta porque não posso pagar alguém que limpe minha casa uma vez por semana, porque é caríssimo.” Ela falou: “ué, deveriam ir uns brasileiros para aí trabalhar em casa de família”. Eu disso: “até tem, só que não existe tanta diferença entre o salário dos que limpam uma casa e dos que trabalham de vendedores numa loja ou qualquer outro trabalho. Isso não é o máximo?” Ela ficou pensando. Eu também fiquei pensando, porque penso muito nisso sempre. No Brasil, a diferença de classe é tão marcada que mesmo se o hospital público fosse excelente, será que os ricos iriam aos mesmos hospitais que os pobres? Quem quer pagar bem sua empregada doméstica para que o nível social dela seja tão bom quanto o seu? No mês passado, de férias em Paris, vi uma mulher brincando com o filho num tanque de areia numa praça pública. Será que alguma “madame” brasileira levaria seu filho para brincar na mesma areia que o filho de sua empregada doméstica? Essa é minha resposta à pergunta do “Expatriados” sobre o que poderia ser implementado no Brasil: que a igualdade de classe venha não só de uma melhor condição social para o pobre, mas também de uma maior consciência cívica do rico.

No meu blog pessoal, Flanâncias (http://www.flanancias.com), vocês podem ler um pouco mais sobre mim e sobre o que ando fazendo por aí, viagens, cultura, etc. Também sou coloboradora do Brasil com Z (http://brasilcomz.wordpress.com), outro site que congrega brasileiros espalhados pelo mundo. Para quem quiser contratar serviços de tradução, é só me contatar também pelo meu site (http://www.lucyleite.com). Nos vemos por aí!

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9 Respostas

  1. Só um detalhe, pessoal: não sou mais colaboradora do Brasil com Z! Mesmo assim, não deixem de visitar o blog deles que é muito legal!

  2. Adorei seu depoimento!!! Também gostaria de ver um Brasil menos desigual.
    Um beijo!

  3. Me encantó tu nota, es una auténtca Lucy.
    Me siento feliz de sentirme una amiga argentina.
    Un beso Nora

  4. Gostei do que escreveste, mas confesso que frustrei minhas expectativas com relação à entrevista que pensei que iria encontrar.
    Coisas “banais” como custo de vida, atenção ao cliente, clima, mercado de trabalho, segurança pública, etc. também são interessantes e me parecem ser a essência nas outras entrevistas que li. Também não sou fã de programas de TV, mas depois que disseste que está há anos sem assistir a um (algo bem excêntrico, convenhamos), passei a entender melhor a alma do teu texto.
    Parabéns!

  5. Excelente o melhor depoimento que li nesse site ate agora!!!!

  6. “Os argentinos, quando chegam a te chamar de amigo, é porque você é amigo mesmo, não como o brasileiro que diz amigo para o cara que acabou de conhecer no bar. São denominações, apenas, mas a palavra “amigo” na Argentina tem um valor mais especial e essa é uma das coisas mais bonitas que aprendi lá” (…) penso da mesma forma! Boa sorte onde estiver agora! =)

  7. Obrigada pelos comentários, pessoal!

  8. Também vivi na Argentina e, ao ler seu texto, era como se um filme passasse pela minha cabeça… A rivalidade BRA x ARG, fomentada pela mídia, parece ater-se ao mundo do futebol, e mais por parte dos brasileiros que dos próprios argentinos. O argentino geralmente gosta do brasileiro, fala de seus passeios ao Brasil, das músicas brasileiras (das de qualidade e do axé tb, infelizmente) e divide isso como se fossemos do mesmo lugar! E, por falar em dividir, jamais em minha vida eu pensei que tomaria mate, dividiria um canudinho, com alguém. Mas, ao VIVER lá, vivenciar tudo como uma não-expatriada, aprendi que o mate é uma cerimônia, é um encontro com a alma do amigo…por isso, assim como vc descreveu, essa palavra AMIGO é tão profundamente valorizada. Talvez aí entre a impressão de “antipatia” que às vezes temos dos hermanos… Mas, convenhamos, que o ego e a auto-estima são características garantida em qualquer argentino, principalmente os portenhos. Defeito? Não sei… Temos tantos outros…
    Abraços.

  9. Eu gosto do Brasil por causa da cidadania e da ética, o que eu odeio no Brasil é o outro lado dele, como a violência(Não tem essa de deixar bandido solto para importunar as pessoas, tem de matar mesmo!!), a corrupção, preconceito(os idiotas que gostam de discriminar deveriam se olhar no espelho antes de falar besteira pra boi dormir) e outros males da sociedade brasileira.

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