Do acarajé à Currywurst

Priscila sempre teve vontade de desvendar o mundo e desde que estudou inglês em Londres em 2003, essa vontade só aumentou, juntamente com sua pesquisa sobre estagio no exterior.

Há 4 meses, depois de um arduo processo seletivo com a AIESEC, ela embarcou para Hamburgo na Alemanha…

– Nome:
Priscila França de Andrade

– Onde nasceu e cresceu?
Vitória da Conquista, Bahia.

– Em que país e cidade você mora?
Hamburgo, Alemanha.
Priscila em Hamburgo

– Você mora sozinho ou com sua familia?
Moro sozinha, em uma residência estudantil.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Há quatro meses.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?
Na Inglaterra, em Londres.

– Qual sua idade?
28 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Sempre tive vontade de estudar no exterior. Sou apaixonada por idiomas e planejava estudar inglês na Inglaterra desde que comecei a aprender a língua. Passei dois meses na Inglaterra em 2003, estudando inglês e fazendo todos os programas gratuitos possíveis: indo a museus e parques, passeando pela cidade, etc.
A vontade de viajar, conhecer novos lugares e pessoas, aprender e descobrir o mundo não passou depois desta experiência. Ela parece um bichinho, futucando sempre e dizendo: “Ei, você vai pra onde agora? Já fez as malas?
Passei um tempo fazendo as malas apenas na imaginação e pesquisando bastante sobre estágios no exterior, que era o que eu queria fazer. Adiei os planos algumas vezes por problemas familiares e, em 2009, finalmente consegui o tão esperado estágio e acabei aqui em Hamburgo.
Fiz o processo seletivo pela AIESEC, uma rede global formada por jovens universitários e recém-graduados. A cada ano a organização oferece a seus membros a oportunidade de viver e trabalhar num país estrangeiro em áreas de gestão, tecnologia, educação e desenvolvimento social. Escolhi fazer um estágio remunerado em gestão e passei por um longo processo seletivo.
Não foi fácil, principalmente porque o escritório da AIESEC mais próximo da minha cidade fica em Salvador (cerca de 550 km de distância), o que significou muitas horas de viagem e noites mal dormidas para completar as diversas etapas do processo seletivo. Tive que conciliar faculdade, dois empregos e o processo seletivo em outra cidade.
Depois do processo seletivo para entrar para a AIESEC os candidatos às vagas de estágio tem que buscar as suas próprias chances online. Me candidatei a inúmeras vagas no setor de administração, mas como não tenho formação na área , foi difícil conseguir algo. Fiz algumas entrevistas e fui selecionada para trabalhar no bab.la, um portal linguístico com sede em Hamburgo. Eu era professora de inglês no Brasil e isto contou muito. O trabalho no dicionário concilia a minha experiência com idiomas e também em administração, já que sou responsável pelo marketing em português.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Conseguir o visto foi demorado e burocrático, mas não foi difícil. Eu tive a assistência da AIESEC na Alemanha para conseguir alguns dos documentos exigidos, como o ZAV (Zentralstelle für Arbeitsvermittlung), que é uma autorizacao da Central de Agenciamento de Trabalho. O visto para estágio demora de 8 a 10 semanas e todas as informações necessárias estão no site da Embaixada da Alemanha no Brasil.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Meu seguro saúde é específico para estudantes e foi feito pelo DAAD, que é parceiro da AIESEC. O site do DAAD é excelente para quem pretende estudar na Alemanha.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Sou estagiária no bab.la, um portal linguístico online, interativo e gratuito que oferece dicionários em 15 idiomas, exercícios para aprender vocabulário, testes linguísticos, jogos e fóruns. Participei de vários projetos desde que comecei a trabalhar na empresa. Dois deles foram lançados recentemente: o Guia de Frases e o Guia de Sobrevivência. Foi muito trabalho, mas valeu a pena!
O Guia de Frases foi desenvolvido com base na sugestão de usuários e contém frases úteis para uso acadêmico, empresarial e pessoal. O Guia de Sobrevivência traz as palavras e frases mais importantes e necessárias quando se viaja ao exterior. Os dois guias são gratuitos e disponíveis em 14 idiomas. É possível combinar o Português com qualquer um dos 13 idiomas, inclusive japonês, chinês e hindi.
Sou responsável pelo marketing do site e seus produtos no mercado luso falante, principalmente o brasileiro. O bab.la oferece ainda uma caixa de tradução que pode ser incluída gratuitamente nos websites das instituições ou pessoas interessadas.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Continuo trabalhando com idiomas, mas de uma maneira diferente. No Brasil eu era professora de inglês, aqui sou responsável pelos dicionários de português e marketing para os países de língua portuguesa, principalmente o Brasil. Atualizo a base de dados dos dicionários, crio testes e cuido das páginas do site no Facebook, Orkut e Twitter. Também escrevo semanalmente para o blog Lexiophiles. É um blog descontraído sobre idiomas e diferenças culturais, escrito por quem trabalha no bab.la e quem tem interesse sobre estes temas. Se alguém se interessar em escrever artigos para o Lexiophiles pode me contatar em priscila@bab.la.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Estudei alemão por quase dois anos no Brasil antes de vir para cá. Entendo o básico e sei me comunicar, mas ainda não falo o idioma fluentemente. Mesmo já tendo uma noção básica, a diferença do idioma foi o que mais pesou no começo. Não dá pra conversar com quem senta ao seu lado no ponto de ônibus, por exemplo. Hamburgo é uma cidade grande e com pessoas do mundo todo e ainda assim não é tão fácil encontrar quem fale inglês. Uso o que sei em alemão, misturo com inglês, mímica, sorrisos e muita boa vontade e acabo conseguindo o que quero. Apesar de serem mais reservadas, as pessoas aqui têm sido muito simpáticas neste sentido: elas fazem o que podem pra tentar entender quem não fala alemão, principalmente se você tentar falar a língua.
Como gosto de estudar idiomas, continuo tendo aulas de alemão aqui, embora o meu emprego não exija isso. Os ambientes do trabalho e da AIESEC são internacionais, mas, em ambos, os alemães costumam conversar entre si em alemão. Claro, é a língua materna deles! De qualquer forma, é mais difícil se enturmar se você não fala a língua. Por isso, a maioria dos meus amigos são estrangeiros. Não tenho planos de ficar aqui depois do estágio nem ser fluente em alemão, mas acho fundamental aprender a língua do país onde se vive.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Não tenho filhos.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Morro de saudade da família (incluindo os gatos) e dos amigos. Sinto saudade também de coisas que nunca pensei que fosse sentir: do sol, da maneira de ser das pessoas e da língua. Fui para a Espanha há duas semanas e percebi o quanto estava sentindo falta disto. Esperando para atravessar a rua, fiquei super animada quando vi as pessoas atravessando no sinal vermelho e fui junto! Deixe-me explicar: aqui na Alemanha (em Hamburgo com certeza!) as pessoas não atravessam a rua se o sinal estiver vermelho para o pedestre. Eu sei que é lógico: vermelho significa “não atravesse”. Mas eles não atravessam nem às 3 da manhã, num frio de matar e sem nenhum carro à vista. Absolutamente nenhum carro, bicicleta ou qualquer outro meio de transporte. Na primeira semana isto é o máximo. Depois, quando você está atrasada para pegar o trem ou congelando na volta pra casa, nem tanto. Também sinto falta de comida caseira.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Priscila em Hamburgo
Feriado por aqui é coisa rara. Aos domingos tudo está fechado. Ainda não acostumei em ter que fazer tudo até sábado por que domingo nada abre. Nada de supermercado ou shopping! A época do Advento é uma exceção: as feiras natalinas funcionam todos os dias, e espalham um cheiro delicioso de Glüwein (vinho quente temperado) e comidas natalinas pelo ar.
No verão as pessoas costumam ir para os parques tomar sorvete, fazer piquinique, churrasco, tomar sol, andar de bicicleta. Agora, no inverno, o programa é ir para casa dos amigos, cozinhar e assistir filmes e beber Glüwein. A cerveja também está sempre presente. Quente, assim como o refrigerante. Por mais que eles achem que a bebida está gelada, para mim e meus amigos da América do Sul continua quente. E comer Currywust, que adoro!

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Não tenho planos definidos para o futuro. Quero fazer mestrado em administração. Minha idéia inicial era cursar na Inglaterra ou Irlanda, mas os cursos nesses países são muito caros. Estou procurando cursos na Espanha e Portugal, mas ainda estou no início da pesquisa. Gosto de Hamburgo, mas prefiro morar num local onde eu fale a língua ou seja uma mais fácil de aprender.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?
Moradia em Hamburgo é cara e escassa, principalmente para estudantes. A rotatividade é baixa, pois as pessoas vêm para cá e não saem mais. Elas não mudam de, somente para Hamburgo.

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil? – Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
A segurança é um dos pontos positivos. Outro é o transporte público que é excelente. Seria tão bom se tivéssemos no Brasil ônibus como os daqui, em que pessoas com dificuldade de locomoção entram e viajam sem problemas! Os ônibus não têm escadas e nivelam sua altura com o chão, o que facilita a entrada e saída dos passageiros. São super pontuais, razão pela qual eu vivo perdendo o ônibus. Ele passa às 7:58h , que para mim é o mesmo que 8:00h, mas estes dois minutos aqui fazem diferença. Me incomoda a falta de calor humano, de interação com as pessoas.
Priscila em Hamburgo

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Pesquisar bastante antes de viajar e se aventurar em outro país é fundamental, independente de onde seja. Ter disposição e mente aberta para procurar entender as diferenças e aproveitar ao máximo a experiência.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
Embaixada da Alemanha no Brasil: http://www.brasilia.diplo.de/
DAAD: http://www.daad.de/en/index.html
Viver na Alemanha: http://www.viver-na-alemanha.de/

8 Respostas

  1. Priscila, eu sofro dos mesmos pontos negativos que vc aqui na Suiça!

    bjs

  2. Em breve eu tb estarei experimentando viver por um tempo em outro país. Adorei a entrevista!

  3. Priscilla,
    Também sou expatriado e estou fazendo minha pesquisa de tese de doutorado sobre esse tema. O meu estudo é sobre influências de novas culturas no comportamento de consumo de expatriados brasileiros.
    Gostaria muito que você respondesse o questionário de pesquisa, que é totalmente online e leva somente uns 10 minuros. Está disponível em:

    http://expatriados.questionpro.com

    (não tem que abrir nenhum arquivo, o link leva direto para o questionário; a questionpro é a maior empresa do mundo em desenvolvimento de softwares para pesquisas online).
    Muito obrigado,
    João Carlos Neves de Paiva
    Representante do Banco do Brasil no Panamá
    Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/7874633406399872

  4. Prisci,

    Muito bem lindinha.
    Gostei muito de sua entrevista.
    Parabéns, te desejo sucesso.
    Mil beijos,
    Sirlene

  5. […] This post was mentioned on Twitter by Priscila Andrade, Glass School. Glass School said: Entrevista com nossa ex-professora, atualmente fazendo intercâmbio na Alemanha, Priscila França http://bit.ly/94Ul7K […]

  6. Oi Priscila,
    Que legal ler sobre sua experiencia! Como Alumni da AIESEC achei estranha a novidade dos candidatos agora terem que procurar seus próprios estágios! “Naquela época” eu era responsável por isso, junto de um programa computacional.
    Pra mim é interessante ler sobre a experiencia de outras pessoas que moram no mesmo país que eu moro.🙂
    Vc já olhou mestrados em ingles aqui na Alemanha mesmo? O ponto positivo ficaria com o fato de que o estudo na Alemanha é praticamente grátis e de boa qualidade, apesar do impecilho do idioma difícil “lá fora”.
    Desejo tudo de bom pra vc e boa estadia!
    Um abraco,
    Sandra

  7. Olá Priscila.
    Estou começando a pesquisa de intercâmbio cultural. Vi sua entrevista. Já morei em Vitória da Conquista e nasci pertinho de vc, Jequié conhece???
    Gostaria de pedir seu e-mail para mantermos contato.
    Pode enviar para o meu.
    Será muito bom conversar mais um pouco com vc!
    obrigada!
    Catiele

    • Oi pessoal,

      Obrigada pelos comentários.

      @Sandra – Os cantidatos agora têm que pôr a mão na massa desde o princípio🙂 Estou pesquisando alguns mestrados em inglês aqui na Alemanha também. O preço é realmente bom, já escolhi alguns para me inscrever. Obrigada pela dica!

      @Catiele – Jequié, claro, passei muito por lá nas minhas idas e vindas à Salvador. Já pesquisei bastante sobre o assunto e acho que posso dar algumas dicas para você. Meu e-mail é prisceandrade@yahoo.com.br

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