Na geladeira do mundo

No círculo polar ártico, em RovaniemiMaira sempre sonhou em fazer seu mestrado no exterior. Atraída pela educação de ótima qualidade, gratuita e em inglês da Escandinávia, foi parar em Tampere, na Finlândia. Apesar dos altos e baixos causados pelo clima predominantemente frio, a experiência tem se mostrado enriquecedora. Veja como é a vida de uma estudante brasileira em terras geladas.

– Nome:
Maira

– Onde nasceu e cresceu?
Brasília, DF

– Em que país e cidade você mora?
Tampere, Finlândia

– Você mora sozinho ou com sua familia?
Com o namorado finlandês

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Dois anos

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?
Sim, em Genebra, na Suíça

– Qual sua idade?
26

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Meus pais são professores universitários. Em 1996, meu pai saiu do país para fazer o doutorado dele em Edimburgo, na Escócia. Dois anos depois, eu e meu irmão fomos visitá-lo. Desde aquela época, eu já sabia que também seria uma pesquisadora acadêmica, e sonhava em fazer meu mestrado no exterior. Tentei ir para a Inglaterra, mas apesar de ter sido aceita na universidade, não consegui bolsa. Foi aí que descobri que na Escandinávia os mestrados eram em inglês, e de graça. Apliquei para uma vaga na Finlândia e fui aceita.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
O visto de estudante para a Finlândia é fácil de tirar, tendo a carta de aceitação da universidade em mãos. O porém é que o governo finlandês exige seguro-saúde e comprovação de meios para se sustentar durante o período de estudo. Hoje, a quantia a ser comprovada é de 500€ por mês. Além disso, o visto tem que ser renovado a cada ano, e consequentemente o estudante deve provar ter o dinheiro e um seguro de saúde válido.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Tenho o seguro. Antes de vir, fiz o seguro com uma empresa de intercâmbio brasileira. Agora, já na terceira renovação de meu seguro, fiz com uma empresa americana, e a cobertura saiu pela metade do preço.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Vim para a Finlândia com dinheiro suficiente para me manter pelos primeiros seis meses com tranquilidade. Controlando os gastos e com ajuda da família no Brasil, consegui viver de setembro a abril com esse dinheiro. Em abril, como é de costume aqui nas universidades finlandesas, o departamento abriu vagas para os estágios de verão. Me inscrevi e fui selecionada para o estágio, e posteriormente consegui um contrato como assistente de pesquisa que durou mais um ano e pouco. Alunos com visto de estudante são autorizados a trabalhar por meio período durante os meses de aula (setembro a maio) e horário integral durante os meses do verão (junho, julho e agosto). Novamente controlando os gastos, consegui usar o dinheiro acumulado para me manter também durante os meses após o término do contrato. Agora estou apenas estudando, correndo para terminar minha tese de mestrado.
Apesar de ser permitido arrumar emprego de meio-período durante os estudos, não é fácil conseguir emprego sem falar a língua. Empregos para mão-de-obra não especializada (em bares e restaurantes, supermercados, empresas de construção e por aí vai) exigem fluência em finlandês. A única exceção que conheço é o trabalho como testador de localização de software, nos quais ser falante nativo de outra língua é pré-requisito para conseguir o emprego. Conheço muitos brasileiros que trabalharam nisso, mesmo sem serem formados em áreas relacionadas à tecnologia. Porém, nesses dias de crise econômica, a oferta de empregos desse tipo está bem pequena.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Continuo na mesma área.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Hoje, dois anos depois de ter pisado aqui pela primeira vez, posso dizer com orgulho que falo! Não sou fluente de maneira alguma, ainda tropeço nos diversos modos das palavras e esqueço termos comuns com uma certa frequência. Mas venci as primeiras etapas, e não corro mais o risco de morrer de fome se me largarem sozinha no meio da Lapônia.
É difícil aprender finlandês por vários motivos, mas eu diria que os principais são que:
1) finlandês não se parece com nada, e
2) os finlandeses falam inglês muito bem, então ainda que se tente praticar, é muito fácil simplesmente mudar para o inglês ao primeiro sinal de dificuldades. Além disso, para muitos, a motivação é baixa, já que finlandês não será uma língua muito útil caso não se pretenda ficar no país.
Para alguém que vem para a Finlândia apenas para estudo, aprender finlandês não é de maneira alguma essencial. Um estudante internacional (especialmente os de intercâmbio) acaba ficando amigo de outros estudantes internacionais, e sua vida social gira em torno dessas amizades. A lingua franca sempre é o inglês. Mas com certeza a Finlândia que esse estudante conhece não é a mesma Finlândia dos locais. Acredito que a única maneira de aproveitar plenamente a estadia na Finlândia é sabendo a língua, ou ao menos se esforçando para saber.
Os finlandeses certamente apreciam quando um estrangeiro decide aprender sua língua. As universidades sempre têm cursos de finlandês para os alunos estrangeiros, que podem ser contados como créditos no histórico escolar. Durante o verão, as universidades de verão oferecem cursos intensivos (normalmente pagos, mas pode-se tentar descontos para estudantes com orçamento limitado). Para níveis mais avançados, por vezes o governo finlandês oferece cursos de graça, para promover melhor integração da mão-de-obra especializada à cultura local.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Minha relação com a Finlândia sofre de altos e baixos, que não por acaso coincidem com os altos e baixos do clima. Tenho muita dificuldade com a sociedade extremamente individualista deles. Coisas pequenas, do tipo sorrir para uma criança no supermercado, e a criança virar a cara ao invés de sorrir de volta, me incomodam bastante… Mas conforme o tempo passa, você vai se acostumando, talvez até incorporando muitos dos costumes locais, como apreciar o silêncio e apreciar que respeitem sua privacidade. E aprender a língua faz muita diferença no sentimento de pertencer à sociedade, então posso dizer que hoje me sinto muito melhor do que quando cheguei.
Diz-se aqui que é difícil fazer amigos finlandeses, mas quando faz-se amizade com um deles, é para sempre. Acredito nisso, pois os finlandeses são extremamente sinceros e diretos. Tenho diversos colegas finlandeses, mas amigos mesmo, certamente posso contar nos dedos de uma mão.
Com relação ao respeito aos brasileiros, ao menos na cidade onde vivo nunca tive nenhum problema e nunca ouvi falar de nenhuma situação ruim. Aliás, fiquei bastante surpresa com a quantidade de finlandeses que conheci que estão aprendendo português, que apreciam nossa música, nosso futebol, a capoeira. Já ouvi relatos de estrangeiros em cidades menores que sofreram algum tipo de preconceito, mas até onde sei violência física contra estrangeiros é coisa bem rara.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Não tenho filhos.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Saudades da família é minha maior tristeza aqui. Frio e escuridão não são nada comparadas à tristeza que é perceber que cada dia aqui é um dia a menos lá.
Sinto falta da variedade de frutas e verduras de nossos supermercados (sou vegetariana). O resto dá para arranjar, seja em lojas de produtos especializados, seja pedindo para amigos trazerem na mala. Sempre tenho na minha despensa feijão preto e farinha de mandioca, chá mate, trigo para quibe… Ah, não há muitos restaurantes brasileiros, aqui em Tampere não tem nenhum. E comer em restaurante é caro de maneira geral, então aprendi a cozinhar minha comida. Sempre tento usar alho e cebola para dar aquele gostinho de comida de vó 🙂
a vista da minha janela, em fevereiro

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Minha vida social noturna aqui é muito menos ativa do que no Brasil. O principal motivo é que eu não gosto muito da ideia finlandesa de diversão. Sempre envolve muito álcool e uma ressaca fenomenal no dia seguinte. Como eu não bebo muito, sempre fico meio excluída nas festas. Costumo brincar que há um curto intervalo de tempo para interação com os finlandeses, no qual eles já beberam o suficiente para se soltar, mas ainda não estão bêbados demais e serão capazes de lembrar sobre o que conversaram. É um exagero, mas não está muito longe da verdade.
Durante o verão, minha atividade preferida é fazer piqueniques na beira de um dos milhares de lagos finlandeses. Passar um dia preguiçoso tomando um solzinho na “praia” é uma das melhores experiências aqui. Os lagos esquentam até bastante durante o verão (considerando que na outra metade do ano estão completamente congelados!) e dá para nadar. Adoro também andar de bicicleta. Pretendo um dia fazer uma pequena viagem de bicicleta e acampar no meio de uma floresta.
na Finlândia também faz sol, e também tem “praia”

No inverno há a possibilidade de esquiar, patinar, jogar hóquei no gelo. Eu não sou muito fã desses esportes, por isso no inverno minha principal atividade é ler bastante. As bibliotecas daqui são impressionantes, parecem livrarias e estão sempre cheias! Nada parecido com a imagem de estantes de livros velhos e empoeirados em corredores escuros que tenho das bibliotecas de minha cidade. Ah, e no inverno, eu não perco nenhuma oportunidade de ir para uma boa sauna. Aliás, no verão também não 🙂
fazendo um anjinho de neve

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Assim que terminar meu mestrado, volto para o Brasil. Mas existe uma grande possibilidade de tentar voltar para cá para o doutorado. Gosto da Finlândia, e algo me diz que meus laços com o país vão durar para sempre. Mesmo que não me mude para cá, sei que quero vir e passar outros verões aqui, aprender melhor a língua, manter as amizades que fiz aqui.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?
Eu moro em um apartamento para estudantes. Em toda a Finlândia existem esses escritórios que alugam apartamentos ou quartos para estudantes e jovens profissionais, a preços muito em conta e com todos os serviços incluídos. Há um site muito bom com informações sobre os diversos escritórios nas cidades onde há universidades, onde é possível ver as possibilidades e preços. Aqui em Tampere é possível alugar um quarto em apartamento compartilhado por cerca de 200€ por mês, com todos os serviços incluídos. Um estúdio para uma pessoa sai mais caro, creio que cerca de 500€ por mês, também com tudo incluído.

– Qual o custo de vida?
Para um estudante, aqui em Tampere, é realista dizer que 600€ por mês dá para cobrir tranquilamente todos os gastos básicos. O que sai bem caro para um estudante aqui são as festas (álcool é caríssimo, taxado pelo governo para tentar evitar os problemas com alcoolismo), comida em restaurantes, cinema, etc. Procurando alternativas de lazer mais em conta, é possível viver com até uns 500€ por mês. Em Helsinki o aluguel sai mais caro do que em Tampere, mas os outros custos são muito parecidos.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Positivos: segurança, ótima qualidade da educação, contato com a natureza, fácil de viver sabendo apenas o inglês.
Negativos: o inverno (frio e escuridão), distância de pontos turísticos da Europa, dificuldades de adaptação à cultura individualista, excessos com o álcool.

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
Certamente o que mais me chama atenção aqui é o problema com o álcool. Não apenas o alcoolismo, que se vê nas ruas na imagem dos senhores e senhoras caindo de bêbados já às onze horas da manhã. Me impressiona também o tanto que a cultura e o conceito de diversão gira em torno do álcool, de beber até cair. A noite só é considerada boa se bebeu-se tanto que não se lembra de nada. Claro que é uma generalização, e há finlandeses que não se comportam dessa maneira, mas é algo bem comum por aqui.

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil?
Eu amo uma invenção super simples, mas que faz a vida doméstica ser tão mais fácil. É o “drying cabinet”, ou o armário de secar louça. Fica logo em cima da pia e não é fechado na base, então a água que escorre dos pratos cai direto no lugar certo. O dia que eu tiver um apartamento, essa vai ser a primeira coisa que vou encomendar!
o astiankuivauskaappi, ou armário de secar louça: invenção finlandesa

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Se possível, chegue aqui no verão. O inverno é muito mais tolerável se você souber o tanto que o verão é gostoso.
Traga roupas “middle layer”, ou seja, casacos de lã ou equivalentes, que você vai usar entre a roupa normal e o casacão de frio. Esse casacão só se acha aqui mesmo, tem que ser resistente à água e ao vento, mas as roupas do meio e as roupas de baixo acabam sendo meio caras.
Se tiver intenção de aprender finlandês (o que eu recomendo!), pegue aulas assim que chegar aqui. O começo é difícil, e acho que a ajuda de um professor, ao menos para vencer as primeiras etapas, é necessária. Depois vai ficando mais fácil se entender com a estrutura da língua, e talvez dê até para continuar sozinho.
Se acreditar nessas coisas, traga uns florais de Bach ou uns remédios homeopáticos ou fitoterápicos para dar uma forcinha no inverno. Eu também descobri que negar a depressão só faz a gente se frustrar mais. Tem que fazer que nem os finlandeses: eles não lutam contra a tristeza que chega com o inverno. Eles se permitem sentir essa tristeza, e sabem que a primavera sempre chega.

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiencia que esta vivendo nesse país, qual seria?
Enriquecedora.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
Me juntei com uns amigos para montar um site sobre morar na Finlândia. Ainda está no começo, mas espero que seja um bom espaço para quem mora aqui, pretende vir morar ou simplesmente tem curiosidade pelo país e sua cultura: http://www.brasilialainen.com

Recomendo também a comunidade do Orkut Brasileiros na Finlândia, que é um dos melhor lugar para trocar experiências com outros brasileiros na mesma situação.

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9 Respostas

  1. super show!
    e legal saber que na escandinavia os estudos tem prioridade, sem custo.

  2. Muito legal essa entrevista! Não tinha idéia de como era a Finlândia e nem que era possível estudar por lá em inglês!

    bjs

  3. Adorei a entrevista,estou fazendo um trabalho escolar sobre a Finlândia e essa entrevista me deus algumas ideias.
    Beijos

  4. Parabéns pela sua entrevista. Quanto ao armário, realmente é ótimo, a minha cunhada tem no apto dela.

    Boa sorte…………..

  5. Que bacana saber que apesar de varios pontos em comum entre os paises da Europa, sempre havera algo impar. Por exemplo, eu ja conhecia, porque tenho amigos que tem este secador de pratos no Brasil mesmo, e ja faz muitos anos, mas, aqui na Inglaterra nao se usa, e maquina de lavar pratos mesmo. Na verdade e mais incomum nao ter uma maquina de lavar na casa das pessoas.
    Ann

  6. Olá..

    Gostei da entrevista.. Adoraria conheçer a finlandia 🙂
    Kiitos!

    Então, a lingua é diferente mesmo!
    A única coisa que eu queria comentar é que em vários países se bebe e se bebe muito.. acho que quanto pior o clima, mais eles bebem.. (tirando a australia)

    Beijos

  7. cara Maira,gostei das suas dicas,mande mais informações, sobre este país maravilhoso.obrigada

  8. Maira você ainda mora em Tampere? gostaria muito de lhe conhecer, pois, vou morar em Tampere e seria muito bom conhecer brasileiros.

    Abraços´

    Marianna

  9. […] https://expatriados.wordpress.com/2009/11/02/na-geladeira-do-mundo/ This entry was posted in Vida and tagged blog, entrevista, finlândia. Bookmark the permalink. ← Trabalho para Imigrantes na Finlândia* A neve chegou → […]

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