Vivendo no coração da Itália

Cansados da violencia urbana das cidades brasileiras, Mariangela e sua familia decidiram imigrar para a Italia há cerca de 3 anos. Aproveitaram que o marido tinha a cidadania Italiana e embarcaram para a região da Umbria. Através de suas palavras é possível visualizar os pontos positivos negativos do seu novo país…

– Nome:

Mariangela Ragassi

– Onde nasceu e cresceu?

Nasci em Ourinhos no interior de São Paulo de onde é a familia da minha mãe, mas cresci em Jundiaí e morei muitos anos em Caraguatatuba-SP.

– Em que país e cidade você mora?

Moro na Itália na cidade de Bastia Umbria, na região da Umbria, entre as cidades de Assisi e Perugia.

– Você mora sozinho ou com sua familia?

Moro com meu marido e com minha filha que agora está com 18 anos.

– Há quanto tempo você reside nesse local?

Há pouco mais de três anos eu vivo na Itália, mas em Bastia estou há dois anos.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?

Não.

– Qual sua idade?

Tenho 39 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?

Morar no exterior foi uma idéia que sempre me atraiu, pois eu gosto de conhecer coisas novas e tenho muita resistência em criar raízes. Mas, por ironia do destino, esta minha maneira de ser me levou justamente a buscar as raízes da minha familia na Itália para levantar a documentação necessária ao processo de reconhecimento da cidadania italiana por descendência. Comecei a pesquisar no ano de 1997 e dois anos depois me inscrevi na lista de espera do Consulado Italiano de São Paulo. Meu marido já tinha o passaporte italiano desde 1995 e era incrível o magnetismo que ele exercia sobre nós nos momentos difíceis da nossa vida no Brasil. Quando assistíamos no Jornal Nacional aquelas notícias horrorosas sobre a política e a violência, parecia que o passaporte criava luz própria e começava a piscar dentro da gaveta, até que um dia decidimos que era hora de partir. Abrimos mão de tantas coisas: da nossa casa, do nosso atelier, do nosso trabalho, e das pessoas queridas. Quando alguém daqui nos pergunta como escolhemos este lugar e respondemos que foi pela internet, ninguém acredita, mas é verdade! Viemos sem conhecer ninguém, sem nenhum contato de trabalho, apenas porque achamos o lugar simpático!

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?

Não foi difícil, porque eu pedi um visto de reunião familiar, ou seja, meu marido era cidadão italiano e estava se mudando para a Itália com a familia. Para minha filha tive apenas que providenciar o passaporte italiano, pois ela também já tinha a cidadania italiana. Meu processo de cidadania no Consulado Italiano de São Paulo ainda estava na fila de espera, sem previsão para iniciar. Me deram visto de um ano, bastando para isso apresentar as passagens aéreas, a certidão de casamento traduzida por tradutor juramentado que o oficial do Consulado legalizou na hora, e o endereço na Itália para onde estávamos indo. Tudo isso demorou uns dois meses.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?

Nós três viajamos sem seguro saúde. Meu marido e minha filha chegando aqui, fizeram o pedido de residência e puderam imediatamente ser integrados no sistema de saúde pública, mas para mim, a coisa foi mais complicada. Tive que esperar sair o documento de permanência, que demorou 9 meses, e só depois eu obtive a carteirinha de saúde. Em caso de emergência eu deveria recorrer às estruturas de atendimento para imigrantes. Desde 2007 eu tenho a cidadania italiana e meu atendimento não está mais subordinado à renovaçao da permanência.

Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?

Atualmente estou iniciando um curso de cozinha italiana na Università dei Sapori di Perugia que inclui um período de 6 meses de estágio remunerado. Já fiz um pouco de tudo, mas quem sustenta mesmo a família é meu marido.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?

Mudei de área sim. Embora eu tenha providenciado, antes de partir, o reconhecimento do meu diploma universitário junto ao Consulado Italiano, percebi que para atuar aqui deveria fazer uma especialização. Sou formada em educação artística, e assim que cheguei aqui, fiz um curso de pintura cerâmica tradicional da região, que tem mais de 500 anos de tradição! Amei o curso mas não consegui me inserir nesse setor que é bem restrito. Abrir o meu próprio atelier ainda é um sonho que eu acalento, mas para o futuro.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?

Sim eu me comunico bem em italiano, mas não paro de estudá-lo. Existe uma estreita relação entre dominar a língua local e conseguir viver bem. Eu gosto muito de literatura e isso me ajudou bastante, pois desde que eu cheguei, com um italiano suficiente mas sofrível, não parei de ler. O primeiro livro que li me deu muito trabalho porque eu fazia uma lista de palavras que não entendia e procurava no dicionário, e a lista era enorme…Mas com o passar do tempo a coisa foi ficando mais prazeirosa e foi de grande utilidade. Hoje, para minha sorte, moro bem na frente da Biblioteca Municipal e sou frequentadora assídua. Muitas das coisas que eu conquistei aqui seriam impossíveis sem dominar a língua!

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?

O fato de ser brasileiro na Itália tem o lado positivo e o negativo. O positivo é que o Brasil está associado a coisas alegres, a futebol, praia, calor, enfim, é um país simpático para os italianos. O lado negativo é que eles confundem esta alegria toda com falta de seriedade, principalmente no que se refere à mulher brasileira. Eu pessoalmente me vigio bastante nesse sentido para não dar margem a interpretações erradas. Fora isso, tem o problema do aumento da imigração na Itália e dos problemas sociais que isso vem causando. Tudo se agravou com a crise econômica e com a escolha de representantes políticos de tendência ultra conservadora. A Itália vive no limite da tolerância em relacão ao imigrante, e existem exaltações públicas de comportamentos xenofóbicos. É um pouco assustador considerando-se o fato de que há apenas 70 anos a Itália viveu o pesadelo fascista. É sempre um fantasma que parece estar prestes a se materializar. Já passei por situações desagradáveis e é preciso saber responder à altura.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Est udam e têm amigos locais?

Tenho uma filha de 18 anos que está iniciando o 4°. ano colegial da área científica, que dura 5 anos no total. Se adaptou muito bem à escola e tem ótimas notas. Tem uma boa relação com os colegas, mas poucos amigos.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?

Sinto muitas saudades das pessoas queridas que deixei no Brasil, do inverno quase inexistente e de mamão papaya.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?

Aqui a gente mora há uma hora e meia do mar, então, quando faz tempo bom, a gente se reúne com amigos e vai passar o dia na praia. Uma coisa legal que eu adoro é passear a pé ou de bicicleta pelas estradinhas em meio aos campos cultivados, o visual é lindo! Quando faz frio, a gente vai visitar cidades de arte, museus,etc.

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?

Pra sempre é tempo demais! Posso dizer que pretendo continuar aqui ainda por um bom tempo.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?

Eu pago 500 euros de aluguel por um apartamento mobiliado de 2 quartos no centro da cidade. Amigos meus optaram por um financiamento, e pagam em torno de 750 euros por mês. Para financiar basta comprovar renda através de um contrato de trabalho estável.

– Qual o custo de vida?

Sem querer consumir roupas e sapatos de grife e outros luxos dispensáveis, vive-se bem com 1800 euros. Aqui na Itália a qualidade da comida e dos vinhos é excelente, e o preço muito acessível.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?

Positivos: saúde, educação, segurança, fácil acesso aos bens de consumo, riqueza cultural e belezas naturais.

Negativos: inverno longo, conservadorismo excessivo.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?

Para viver aqui é infinitamente mais fácil se a pessoa tem a cidadania italiana.

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiência que está vivendo nesse país, qual seria?

Crescimento.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?

Gostaria de recomendar o blog: http://macarraotododia.blogspot.com/ onde eu troco idéias sobre o dia a dia da vida na Itália. Nele tem outras indicações de blogs e sites relacionados ao assunto.

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8 Respostas

  1. mariangela. muito legal seus esclarecimentos, relatos, fazalgum tempo que quero morar na itália, e o tempo vai passando, tenho todos os documentos prontos para obter a cidadania ai na itália, mas como já tenho 48 anos, fico com medo de aventurar, pois sou casado tenho uma filha de 16, mariangela se vc. de repente puder passar alguma dica a respeito de trabalho para brasileiros na itália, agradeço bastante, meus pais são italianos natos, meu pai da toscana e minha mãe do veneto, saude e sucesso para toda familia.

  2. Mariangela,

    Parabéns pela sua entrevista.

    Boa sorte.

  3. Ola Paschuino
    Bacana vc ter gostado da entrevista. Pra vc que tem todos os documentos na mao nao seria dificil de conseguir a cidadania aqui. Se vc é descendente de 1a. geraçao pode ser que consiga até alguns incentivos da regiao dos seus pais para imigrar pra ca. No meu blog tem um post onde eu fiz uma pesquisa sobre este assunto, é http://macarraotododia.blogspot.com. Tenho também um site interessante pra lhe indicar: http://www.italiacidadania.com.br. Qualquer duvida pode perguntar. Um grande abraço!

  4. Ola Meire
    Obrigada pelo parabéns, um abraço pra vc!

  5. curso de culinaria na Università dei Sapori , wow arrasou!
    gostei mesmo de sua colocacao em todas as perguntas.

    uma abracao,

  6. é sempre bom encontrar relatos de brasileiros por aqui………

    Tanti saluti!!!
    Gi, Roma

  7. Adoro a cidade de Bastia e gostaria muito de me mudar para ela, pois tenho visitado a minha filha há anos e temos a cidadania italiana. Adorei a sua história e é muito importante alguém tomar uma decisão tão desafiadora.
    Marta

  8. OLá. Adorei seu blog. Me casei com um Italiano. No momento moramos no Brasil.Meu esposo pensa voltar a viver na Itália. Ele é do norte da Itália mas deseja viver na Sicilia por causa do clima. Como ele é aposentado na Italia não teremos problemas com trabalho para sobreviver. O problema no momento são os receios do desconhecido. Estou receosa. Nunca coloquei os pés fora do Brasil. Sou Libriana então já viu neh !!
    Gostei muito de sua história e confesso estou mais animada com a ideia de viver na Itália. Tenho duas filhas mas são adutas com a vida encaminhada. Então porque não não éh mesmo?
    Rssss
    Gostaria de manter um contato com você. Pena não ter acesso a e endereço de email ou dar o meu.

    Sendo assim lhe desejo felicidade sempre.
    Bjs a vc e sua familia.

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