Uma loquinha na terra das gauchinhas

Jen em Porto Alegre Enquanto muitos brasileiros buscam oportunidades no exterior, Jenny fez o oposto, abandonou sua carreira de secretaria executiva nos EUA, e desembarcou em Porto Alegre.
Apesar de estar acostumada com uma vida de mochileira e admirar outras culturas, foi uma viagem ao Brasil em 2005 que a tocou e que a fez refazer seus planos e mudar de mala e cuia…

– Nome:
Loquinha Gauchinha

– Onde nasceu e cresceu?
Nasci e cresci numa cidade pequena chamada Crystal Lake, no estado de Illinois, Estados Unidos.

– Em que país e cidade você mora?
Moro em Porto Alegre, RS, Brasil.
Jen em Porto Alegre

– Você mora sozinho ou com sua familia?
Moro sozinha. Com freqüência eu brinco: “eu fugi da casa!”.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Já faz um ano! Mal posso acreditar!

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiencia?
Sim. Quando estava estudando na universidade, fiz um semestre na Galway na Irlanda. Depois de formada, trabalhei na Inglaterra por seis meses.

– Qual sua idade?
Tenho 34 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Eu visitei o Brasil pela primeira vez em 2005. A motivação, nessa época tinha muito a ver com um brasileiro em particular. Eu comecei a estudar o português e fiquei tão apaixonada com a linguagem, as culturas diferentes que tinha testemunhado (que se resumiram a cinco viagens ao Brasil em menos de 3 anos), a música, o ritmo, e a hospitalidade das pessoas que encontrei, que eu decidi para me mudar em 2008. Eu renunciei ao meu trabalho corporativo, me livrei de quase tudo o que não cabia na minha mala, e pulei para o desconhecido.
Após mais de um ano de investigação (sobre o crime, economia, transporte, mesmo a porcentagem de espaço verde), eu escolhi começar a minha nova vida brasileira aqui no sul. Eventualmente, eu poderia mudar para o Rio ou São Paulo, mas me sinto confortável aqui por enquanto.
Jen em Porto Alegre

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Lá nos Estados Unidos, eu trabalhava como secretária executiva. Agora, no Brasil, estou perseguindo meu sonho, ganhando um pouco de dinheiro com trabalho frila como escritora. Esta renda tem que ser bem suplementada pelo dinheiro guardado! Será que alguém lendo esta entrevista quer ouvir minha ideia para o meu livro? (risos)

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Acredito que é muito importante aprender o idioma local. Eu estudei o português antes de me mudar com um professor maravilhoso (um brasileiro em Chicago) por dois anos. Eu costumava tentar ler as notícias do Brasil todos os dias. Quando eu cheguei, eu tinha todo este vocabulário e regras de gramática flutuando na minha cabeça, mas colocá-las em prática tem sido completamente diferente. Me senti decepcionada por um tempo, porque as minhas habilidades de falar e escutar estavam aquém de minha leitura. Tenho uma professora aqui, mas é só recentemente que eu consegui me considerar num nível de “conversação”. Eu tenho um caminho longo a percorrer.
Na maior parte dos casos, os brasileiros têm sido generosos e dizem que o meu português é bom. (O povo realmente é muito simpático!) Houve vezes, no entanto, em que me senti frustrada. Por causa de uma pronúncia um pouquinho errada, fui tratada como se eu fosse totalmente ininteligível. Certamente, isso é universal—uma experiência de estrangeiros em qualquer país e não é uma reflexão do país—mas é agravante mesmo assim.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Durante o ano passado, eu recebi uma acolhida maravilhosa pelos brasileiros em cada lugar que eu fui, e especialmente aqui no sul, onde ser uma estrangeira é um pouco mais raro. Me lembro de um exemplo em particular, que me surpreendeu e encantou. Um dia eu ouvi uma mulher mais velha (que, mais tarde eu aprendi, era paulista) pedindo indicações. Eu me ofereci para guiá-la até a rua que ela queria. Após alguns minutos caminhando juntas, ela começou a falar em inglês perfeito, fazendo perguntas sobre como acabei vivendo em Porto Alegre. Quando chegamos na rua, ela me perguntou o que eu ia fazer a seguir. Eu planejava sentar num café e ler o jornal, mas era um feriado e a maioria das lugares que passamos estavam fechados. Ela me disse, “Eu sei onde você pode tomar um café…na minha casa!” Ela me convidou entrar, me serviu café e bolo caseiro. Eu conversei com ela e seu marido por horas! Foi uma experiência incrível.

– Sente saudades da familia no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Claro, eu tenho saudades de minha família e meus amigos. Às vezes eu sinto falta de coisas estranhas, também, como panquecas (tipo americana) e da boa comida mexicana. Minhas saudades dissipam, no entanto, quando considero que as melhorias simples na minha qualidade de vida: dias e dias de sol, mais tempo livre, uma piscina para fazer natação, e todos as gloriosas—mesmo que irreconhecíveis—frutas tropicais!

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Além de escrever e perambular pelas ruas (a minha especialidade), eu passo a maior parte do meu tempo livre socializando com os amigos, ambos os brasileiros e a comunidade estrangeira. Normalmente, vamos para bares e tomamos cerveja nas mesas na calçada. Às vezes, nós fazemos um churrasco, que eu adoro. Eu também gosto de ir ao cinema e centros culturais—eles oferecem programas muito bons.
Jen em Porto Alegre

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Eu ainda não cheguei na fase de planejamento, pois me sinto confortável aqui no momento. No entanto, tenho várias ideias de coisas que eu ainda quero experimentar. Gostaria de fazer uma lenta viagem pelo Brasil, na verdade, pela maior parte da América do Sul. Eu penso em ensinar inglês na Coréia por um ano e gastar o salário numa escapada asiática. Há muitos países que gostaria de visitar no continente africano. A ambição mais “permanente”, se eu conseguir os recursos, seria de abrir um albergue de jovens—um dia—provavelmente aqui no Brasil, que parece ter capturado o meu coração.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imoveis é algo comum nesse país?
Alugo um JK no centro da cidade. É um pouco caro—R$ 700 por mês—mas as taxas e condomínio estão incluídos, e é mobliado. Comprar é mais comum, e está ficando mais barato, mas no momento não estou na posição de fazer isso.

– Qual o custo de vida?
Claro que depende de seu estilo de vida. Felizmente, não sou muito decadente! Eu gasto quando saio com meus amigos, e me associei num clube que tem uma piscina, mas do contrário eu levo uma vida simples. Minha média de despesas básicas mensais (aluguel, internet, celular, eletricidade, alimentos, vestuário, etc) ficam em um pouco mais de R$1300, e as despesas extras (a piscina, socialização, o cinema ou pedicure ocasional) são cerca de R$500.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Os pontos positivos, sem sombra de dúvida, além da referida qualidade de vida e da natureza generosa do povo, para mim são: eu amo a paixão tangível da multidão no jogo de futebol; o transporte público mais eficiente; o clima; as flores; o edifício cor-da-rosa onde é a casa de Casa de Cultura Mario Quintana; os frutos e vegetais… ok… e o churrasco também!; a variedade e vastidão do país…. Se não fosse pela minha lista inesgotável de positivos, eu não estaria aqui.
Jen em Porto Alegre

Nem positivo nem negativo, mas apenas uma observação, é que tudo parece uma contradição: quem tem muito e não tem; a luta por um melhor sistema e a corrupção; a hospitalidade e a elevada taxa de criminalidade, uma pessoa que seja simultaneamente liberal e conservadora. A lista continua e me fascina, a cada passo, me dando uma outra razão para viver aqui. As contradições estimula o cérebro!

Uma fonte de frustração é que eu (como tantos outros) considero o estilo de comunicação brasileira muito diferente daquele com o qual fui criada. Os estadunidenses tendem a falar muito diretamente, e quanto mais próximo o relacionamento, maior a franqueza é esperada. Acho que isso é inversamente proporcional ao estilo brasileiro: quanto maior o estreitamento das relações, menos transparente a comunicação. Não é exatamente uma coisa “negativa”, porque não existe certo ou errado. Mas pode ser muito frustrante às vezes. (Espero que esteja e óbvio que isso é necessariamente generalizado.)

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
De todas as minhas viagens, a interação mais legal que eu tive foi com os moradores aqui.É importante lembrar que eu vivo numa cidade que não é invadida por turistas, por isso os habitantes locais ficam certamente curiosos quando encontram um estrangeiro aqui. Dito isso, tenho sido bem acolhida por tantos brasileiros—em suas casas, para participar de seus casamentos e festas, ou apenas para conversar num bar. As pessoas têm tentado o máximo me fazer sentir segura e têm me dado ótimas dicas para apreciar o meu tempo aqui!

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Absolutamente. Seja flexível.

– Se pudesse descrever em uma palavra a experiencia que esta vivendo nesse país, qual seria?
Revelador.
Jen em Porto Alegre

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?

– Um site útil para os estrangeiros que moram aqui é Gringoes.com.

– Escrevo um blog (em inglês), My Life in Havaianas, e também sou colaboradora em Galavanting, um site encaminhado pelas viajantes mulheres.

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9 Respostas

  1. Oi Loquinha! Amei sua entrevista!!!
    Nunca esperei ver aqui uma entrevista de quem moro no meu país 🙂
    Mas foi muito legal, principalmente para nós brasileiros vermos o quanto este país tem para nos oferecer. E com isto sentir mais saudade ainda =/
    Li que vc morou um tempinho em Galway, que bacana! Eu moro em Galway há mais de um ano.
    Bjos

  2. Adorei a sua entrevista!!!!
    Concordo plenamente com tudo que você falou. Eu amo de paixão o Brasil e não trocaria ele por nada.
    No momento estou morando na Alemanha e estarei indo embora em dezembro/2.010. No Brasil a minha casa fica em SP.
    Boa sorte……………bom pensando bem vc já teve quando escolheu o País que nasci para ser feliz.

    Beijos

  3. Bah que legal a tua historia. Sou de Porto Alegre, moro no bairro cidade baixa, se tu gosta de bar deve ter passado por aqui já!
    dia 10 de agosto está embarcando eu e meu irmão pra Dublin, na Irlanda. Espero receber o mesmo carinho lá que voce disse que recebeu aqui.
    A única coisa que eu não gostei de ti, é que tu escolheu pelo inter (o time de futebol), o Grêmio é muito melhor!

    Abraços!

  4. Também acho que errou na escolha do time! hahaha…que saudades de Porto Alegre…

    Boa entrevista! 🙂

  5. Adorei a entrevista! Tratei logo de entrar no blog dela! Amei os relatos dela,mas devia ter um local pra comentarios =D
    Espero que continue aqui na terra dos Tupiniquins

  6. Muito bacana a entrevista!!! A Lokinha tem muito bom gosto, tanto pela cidade que escolheu como pelo time!

    Um abraço!

  7. Jenny,

    vc parece ser muito de bem com a vida, e tb super flexível para abraçar o nosso país que é lindo, mas tem tantos contrastes 🙂 – ver o jeito que você fala do Brasil me deixa mais orgulhosa de saber que eu sou daí !

    Grande abraço!

  8. Oi Lokinha,
    Adorei sua conversa. É mesmo diferente em comparação a os EUA …. e ao resto do mundo.
    Mas olha, tudo de bom, boa sorte pra voce. Que voce seja muito feliz.

    Ludin.

  9. Em 2.009 quando morava na Alemanha escrevi algumas coisas nesta sua entrevista que hoje não penso como antes. Espero que você esteja bem. Mas hoje eu daria tudo para morar nos EUA. Beijos
    Acessa o meu face almada moda mulher

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