Vivendo o meu sonho em Toronto

Paula em TorontoPaula planejou por mais de 10 anos a sua empreitada no Canadá. Jornalista de formação com 8 anos em assessoria de imprensa, largou o emprego na Johnson & Johnson e mudou-se para Toronto com o marido. Ela nos conta como é recomeçar sempre que preciso para manter acessa a chama de um sonho.

– Nome:
Paula Regina Mazulquim

– Onde nasceu e cresceu?
Eu nasci em Sorocaba, interior de São Paulo, mas cresci e vivi em Boituva (também interior de SP) até os meus 20 anos quando me mudei para São Paulo capital para fazer faculdade de jornalismo. Lá morei até os meus 31 anos quando me mudei para o Canadá.

– Em que país e cidade você mora?
Moro, desde setembro de 2006, em Toronto no Canadá.

– Você mora sozinho ou com sua família?
Imigramos eu e meu marido Mauricio.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Moro em Toronto há dois anos e 5 meses.
Paula em Toronto

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiência?
Sim, mas sempre por períodos curtos para fazer intercâmbio e curso de idiomas. Morei na Itália por 3 meses para estudar italiano, na Inglaterra por 2 meses para aprimorar o inglês e nos EUA por 2 meses em intercâmbio profissional do Rotary.

– Qual sua idade?
34 anos

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Levando em conta a minha personalidade acho que nem eu mesma tinha consciência, mas já queria residir em outro país desde a infância – mesmo! Acontece que o projeto só amadurece e toma forma quando atingimos a nossa independência financeira e temos condições de bancar nossos sonhos com todas as consequências e riscos. Portanto, concretamente a idéia de imigrar surgiu há cerca de 10 anos, por volta dos meus 24 anos, quando eu já tinha condições de guardar o meu próprio dinheiro e tinha o melhor parceiro para me acompanhar nesta aventura – o meu marido que, na época, era “namorido”.
Acho que o fator número um que me incentivou a tomar esta importante decisão foi a minha própria personalidade inquieta, curiosa e sempre querendo encontrar gente do mundo todo, aprender novos idiomas… Toda vez que eu fazia um intercâmbio ou ia de férias para for a do Brasil, eu tinha mais certeza de que queria me estabelecer em um país estrangeiro! Depois, claro, vieram os motivos mais gerais de busca por novos desafios e uma qualidade de vida melhor.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Não. Foram alguns meses de pesquisa, levantamento de documentos e 10 meses* (*demos entrada no processo em 2005, hoje os prazos mudaram) desde o dia da entrada do processo até termos o visto em mãos. Aliás, conseguir o visto de residência permanente é o mais fácil de toda a saga que é se estabelecer em um novo país! O preço que você paga emocionalmente nos primeiros 3 anos (vou completar 3 anos em setembro) é bem alto! Por isso que eu digo que se o seu sonho não for tão alto quanto a infinitude do céu, você não aguentará o preço a pagar no começo, pois os desgastes emocionais são tão altos e infinitos quanto o céu! Hoje sei que o meu sonho tinha esta imensidão por isso ainda estou aqui lutando para continuar a viver o meu sonho!

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Optamos por não fazer o seguro saúde antes de sair do Brasil e que nos protegeria quando chegássemos durante os 3 meses de carÊncia do plano de saúde pública do Canadá. Fizemos isso baseados em dois fatores que se provaram verdadeiros: somos jovens e não temos nenhum problema de saúde portanto, em um período curto de 3 meses não aconteceria nada de grave, como de fato não aconteceu. Claro que durante estes 3 meses não esquiei, não patinei e não fiz nada que pudesse acarretar algum incidente. Hoje, além do plano de saúde pública do governo canadense que já se provou eficaz (infelizmente, precisei usar nos últimos meses), temos o seguro saúde do empregador do meu marido que cobre algumas coisas não cobertas pelo plano do governo como dentista e óculos.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Não. No momento estou procurando emprego. A renda familiar é obtida através do trabalho do meu marido que, graças ao nosso planejamento e à carreira dele de engenheiro de telecom arrumou emprego no nosso segundo mês aqui e lá está até hoje na mesma empresa garantindo a continuação do nosso sonho.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Ainda não mudei mas não porque não esteja aberta. Veja, há um grande distanciamento entre você querer mudar de area, começar a plantar as sementinhas e a mudança em si. Aqui em Toronto, ao menos para imigrantes, não é tão fácil e simples como se fala e pensa. Também demanda tanto tempo, dinheiro e investimento quanto alguém que está mantendo uma carreira no mesmo ramo que atuava no Brasil.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Falo o idioma local desde a minha infância quando comecei a estudar ingÊs e nunca mais parei porque me apaixonei pelo idioma. Portanto, quando cheguei já tinha um inglês bem avançado com mais de 10 anos de uso. Claro que sempre vamos melhorando e já melhorei muito estando aqui no sentido de falar com as mesmas expressões que o Canadense usa, etc…
E claro que é de extrema importância aprender o idoma local para se integrar completamente na sociedade! Entretanto, acho que há um exagero quando se dá total crédito ao idioma quando se fala que um imigrante não está inserido porque não sabe falar direito o idioma, há muito mais fatores envolvidos nesta inserção social e que são muito mais complexos do que estudar um idioma! Não basta apenas saber falar o idioma para ser aceito socialmente, acho que muitos esquecem que a inserção social e econômica do imigrante é uma via de mão dupla e, embora o imigrante sempre possa fazer mais para se ajudar, a real vontade de ter alguém de “fora” inserido em um contexto, não somente socialmente mas principalmente economicamente, vem muito de quem recebe, ou seja , a sociedade nativa que lida com a imigração – no caso a sociedade canadense, e quando falo sociedade falo de todos: governo, ongs, iniciativa privada, clubes, comunidades, igrejas, enfim … acho que a questão da inserção do imigrante é muito frequentemente simplificada em apenas um quesito , o fato de o imigrante ter que aprender a falar bem o idioma.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Gosto do modo de vida canadense. Em geral, há respeito sim pelos brasileiros e outros expatriados. Claro que em todos os lugares há exceções e aqui não seria diferente. Eu mesma já fui alvo e presenciei cenas de preconceito velado em ambientes onde, em tese, isso não deveria acontecer como em sala de aula de respeitadas escolas privadas e ambiente de trabalho. E a coisa acontece sem motivo aparente algum mas o que acontece é que você deixa passar, vai criando uma casca grossa e lembra que são episódios isolados. E do lado de quem comete o preconceito velado há também muita desinformação sobre a imigração, o que quero dizer com isso é que muitas vezes, quando acontece não é intencional mas está lá velado e quem sofre mais com isso é quem está lutando pelo seu espaço, ou seja o imigrante.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Não.

– Sente saudades da família no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
O que mais sinto falta é de acompanhar de perto os acontecimentos da família como nascimentos, casamentos, conquistas e até mesmo os momentos tristes. Além dos frequentes debates que costumava travar com meu irmão e meu pai, altas horas de conversa saudável e reflexoes sobre a vida. Entretanto, tenho plena consciência de que não se pode ter tudo ao mesmo tempo nesta vida. Quando imigramos, fazemos uma escolha clara e que nos cobra emocionalmente mas ao mesmo tempo nos torna muito vivos no sentido de vivenciarmos tudo de uma maneira que não faziamos antes. Até a saudades que sentimos de nossa família e entes queridos é uma forma saudável de nos lembrarmos que se sentimos saudades é porque vivemos bons momentos. É bom sentir saudades, nos faz lembrar quão importante aquelas pessoas são em nossas vidas. Veja, não me entenda mal pois quando digo que é bom sentir saudades é porque normalmente a substituta mais frequente da saudades é a frustração por não ter vivido algo e essa sim pode ser amarga. Enquanto estamos sentindo saudades é sinal que vivemos plenamente tudo que passou! Quanto à produtos, honestamente não sinto falta não mas o que tenho sentido falta ultimamente é da atmosfera tropical, acho que este ano o inverno tá pesado demais ….

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Continuo fazendo coisas que gostava de fazer no Brasil como ir ao cinema, ler um bom livro e curtir a presença de quem eu amo e, neste momento está perto como o meu marido. Acho que na maior parte do tempo não muda muito. Entretanto, a maior mudança ocorre no inverno pois aí faço coisas que por razões óbvias não fazia no Brasil como esquiar e patinar no gelo, patino muito mais que esquio.
Algo que acaba acontecendo naturalmente é que no Brasil eu saía mais, ia mais a restaurantes, pois a minha condição financeira no Brasil era melhor o que não significa que não estou curtindo aquilo que substitui aqui como o paraíso que é o sistema de bibliotecas públicas de Toronto para quem é apaixonado por leitura como eu! Enfim, aquilo que já disse as trocas acontecem, tudo depende de como você as encara. Também fazemos um mochilão ou outro pelo Canadá e pelos EUA quando dá.
Paula em Toronto

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Embora eu goste muito da palavra planos eu não gosto tanto da palavra para sempre! Tenho planos como sempre os tive, mas adapto muito de acordo com o passar do tempo e das minhas necessidades. Os meus planos são viver, onde quer que eu esteja, plenamente o momento e trabalhar sempre para a minha saúde física e mental porque sem elas eu não consigo chegar a lugar nenhum. Tenho planos de amar, de ajudar, de sorrir e de chorar quando necessário, além de lutar até não ter mais forças para ter certeza de que se tentei algo e não consegui não foi por falta do meu esforço!
Ah, quanto a morar para sempre em algum lugar, qualquer que seja, para uma alma como a minha que sabe que tudo é passageiro, a resposta é não, nada é para sempre. Nem eu, em você, nem nada, nem ninguém…

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imóveis é algo comum nesse país?
Pagamos aluguel em um bairro nobre de Toronto e, em geral com aluguéis mais caros por termos tudo à mão. Optamos por pagar um pouco mais no aluguel e termos mais mobilidade e estarmos perto de tudo (cinema, restaurants, bares, mercados, banco, farmacia, biblioteca, tudo mesmo!) Um apartamento aqui com um dormitório e um den (cômodo extra sem janelas) custa $ 1.400 dolares canadenses.

– Qual o custo de vida?
O custo de vida em Toronto é alto! Para quem mora ou já morou em SP capital no Brasil fica mais fácil entender a comparação. Você ganha mais mas vocÊ gasta mais então é tudo relativo. Então se você fizer a comparação UM para UM do custo de vida de SP versus Toronto vai chegar em um valor bem real. Prefiro não chutar valores porque sei também que o quanto uma família precisa e quer para viver é bem diferente, depende muito dos valores e do que esta família acredita ser importante. O que posso dizer é que, assim como SP capital, aqui também tem muitas atividades de lazer gratuitas convivendo com atividades bem caras ou seja tem para todos os bolsos.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
POSITIVOS
– A Proibição do cigarro em locais públicos (Lei Provincial de Ontário) e o respeito à lei. Aqui voltamos de um bar sem o horrível cheiro do cigarro nos cabelos e nas roupas.
– Poder acessar o Sistema público de bibliotecas de Toronto.
– Andar nas ruas tranquilamente sem ter que ficar olhando para todos os lados preocupada com assaltos.
– Ir e voltar de jogos de basquete e shows usando apenas o metro e o ambiente gostoso e saudável destes eventos.
– Ao menos em Ontario, a preferência é sempre do pedestre. Atravessar a rua aqui é uma experiência muito feliz!

NEGATIVOS
– Excesso de preocupação com o politicamente correto (alguns episódios chegam a beirar o ridículo!).
– Exploração (leia-se trabalho gratuíto forçado que é bem diferente de voluntariado) de imigrantes profissionais sérios e experientes mascarado como a discutível falácia de ganhar “experiência canadense”.
– Falta de um programa (leia-se parcerias e estímulos fiscais) eficaz para educar o empregador canadense sobre o potencial da mão de obra imigrante.

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
O que mais me chamou atenção logo que cheguei há dois anos e meio e, ainda me chama em alguns casos, é o excesso de cuidado com o politicamente correto. Não pode falar sobre isso, não pode tocar naquele outro assunto, cuidado com as alergias…Enfim, há tanta diversidade que este excesso de preocupação acaba sendo resultado disso mas em muitos casos, ao menos para mim, beira o ridículo.

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil?
A Preferência ao pedestre.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Venha preparado para abir mão de muita coisa em nome do sonho de se estabelecer por aqui.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
Era do Gelo: blog que mantenho desde maio de 2006 e que tem por objetivo relatar a minha experiência com a imigração.

Ontario Colleges.ca: para quem quer planejar seus estudos nas escolas de Ontario.

How to live in Canada: blog do Gean com muita informação útil para quem pretende imigrar.

Settlement.org: site mantido pelo governo de Ontario e que visa fornecer informações para o recém chegado.

Brazilian Wave: revista bilingue voltada para a comunidade brasileira no Canadá.

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11 Respostas

  1. Adorei a entrevista.
    A Paula Regina é um referencial para mim.
    Beijos, Eliane.

  2. boa entrevista – vc sabe que eu sou sua fã, né Paula? Ainda temos que tomar aquela cervejinha, heim?

    Alexandra

  3. Firme e forte compo sempre! Queria ter metade da sua perseverança!
    Bjs

  4. Achei bem legal a sua entrevista. Eu tambem assim como voce mudei de país. Moro a 5 anos na Holanda. Convido-a a visitar meu site com links e cronicas sobre a vida de uma brasuca na europa.

  5. Interessante a sua colocação sobre o preço alto que se paga por ser expatriado. Só passando por isso prá saber.
    Felicidades prá vocês!

  6. Amei sua entrevsita, suas palavras de força e sua inquietação, na minha opinião ser inquieto é ótimo, nos tira da inércia 🙂

  7. Conheço a Paula há mais de 10 anos. Trabalhamos juntas em duas empresas diferentes e sempre acompanhei como amiga o sonho dela e do marido de viver em outro país. Eles são prova viva de que nada acontece por acaso nessa vida. Tenho muito orgulho deles e, mesmo de longe, continuo sempre torcendo!!!

  8. Paula, é um alívio e conforto ler seu depoimento. Eu e meu marido viemos pra Minnesota há 1 ano, e por mais que eu sempre quisesse morar fora (minha vida inteira, praticamente), só eu sei o “preço” que pagamos por estar longe de todo mundo.
    Sinto uma falta enlouquecedora da família, mas tenho esperança de superar e chegar na sonhada marca dos 3 anos.

    Boa sorte em Toronto!

  9. Nossa, filha! Que espetacular esta entrevista!
    Só hoje , cheguei por aqui!Dá para sentir , daqui , tão longe, todos seus sentimentos, vivências , emoções….
    Ah, preciso trazer a vó Luiza para ler istol!
    Parabéns! Muitos beijos..continue , neste pique que é próprio de vc!Beijos/saudades.

  10. Paula, meu nome é Mariana e eu queria te enviar um e-mail para fazer uma pergunta. Nada demais mas se você pudesse me responder eu agradeceria muito. Estou indo para o Canadá em julho e como achei seu depoimento bem sensato e estamos em situações semelhantes (meu marido é engenheiro de telecom) queria trocar um e-mail.
    Obrigada!
    mary_mmelo@hotmail.com

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