Nossa vida em Vermont

Ze-Jet & Debora nos EUAEntre idas e vindas, do Brasil para os Estados Unidos e vice-versa, Zé, Debora e seus dois filhos acabaram indo parar em Vermont, um bonito estado americano, pertinho do Canadá.
De uma forma agradável e sincera, eles nos contam como é a vida nos EUA e dizem que conseguiram atingir um bom equilíbrio, mantendo as tradições familiares do Brasil e incorporando as no “novo” país.

– Nome:
José Eduardo e Débora.

– Onde nasceu e cresceu?
O Zé nasceu em Curitiba, e cresceu em São Paulo e Ribeirão Preto. Eu, Débora, nasci em Ribeirão Preto e vivi lá a maior parte de minha infância e adolescência, tendo vindo morar duas vezes nos EUA (estado de Minnesota) devido ao trabalho do meu pai.

– Em que país e cidade você mora?
Moramos na cidade de Burlington, a maior cidade do estado de Vermont (um dos menores e menos populoso dos Estados Unidos).

– Você mora sozinho ou com sua família?
Moramos aqui eu, o Zé, e nossos 2 filhos.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Cinco anos.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiência?
Eu (Débora) morei aqui nos EUA quando criança e quando adolescente. Eu e o Zé já tínhamos morado nos EUA antes, no estado da Virginia por 3 anos. Morar na Virginia foi a primeira experiência do Zé de morar no exterior.

– Qual sua idade?
Eu tenho 43 e o Zé, 44 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Depois da ótima experiência que nós e os meninos tivemos na Virginia, a volta ao Brasil foi um pouco tumultuada para nós (profissionalmente nos sentimos muito mais valorizados aqui do que no nosso país). O Zé recebeu um convite de um dos ex-colegas do pós-doutorado (que fez na Universidade da Virginia) para ajudar a desenvolver e tocar um novo laboratório de pesquisa na Universidade de Vermont. Aceitamos o convite rapidinho, apesar de sabermos que o inverno aqui seria bravo.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
O Zé tem visto de trabalho. Foi muito tranqüilo conseguí-lo (a Universidade cuidou de tudo).

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Sim, temos seguro-saúde. Aliás, é ilegal viver aqui nos EUA com o visto de pesquisador visitante (visto J) sem seguro-saúde. O seguro é subsidiado pela universidade e vem descontado do pagamento do Zé.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
O Zé trabalha como pesquisador na Universidade de Vermont, e eu estava trabalhando, até a semana passada, como assistente odontológica (sou formada em Odontologia no Brasil, mas o processo de equivalência do diploma é extremamente complicado). Foi muito fácil para mim conseguir este trabalho, principalmente devido à minha experiência profissional anterior e à minha fluência na língua.
Logo que mudamos para cá enviei meu currículo e uma carta de apresentação para vários consultórios odontológicos, e em menos de uma semana recebi vários convites para entrevista e ofertas de trabalho. Inclusive meu salário, após algum tempo, passou a ser muito mais alto que o de uma “dental assistant” daqui, pois assumi várias resposabilidades que as “assistants” daqui não podem executar. Infelizmente (ou, por um lado, felizmente!) devido à troca do visto do Zé eu tive que parar de trabalhar, pois sob este novo visto (H) os dependentes não conseguem autorização de trabalho. Porém, isso é uma situação temporária, pois a Universidade vai iniciar o processo de obtenção do nosso Green Card, e com ele poderei trabalhar novamente, sem problemas.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Nós dois continuamos na mesma área.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Eu aprendi o inglês da maneira mais fácil possível: quando eu tinha 7 anos vim morar com meus pais e meu irmão aqui nos EUA. Isso me ajudou e ainda ajuda muito na vida, e fico feliz por meus filhos terem tido exatamente a mesma experiência que eu, e hoje somos todos fluentes em inglês. O Zé tinha uma boa base gramatical, mas precisou melhorar a fluência para entender o inglês falado e poder se comunicar no dia-a-dia. Me lembro que ele chegava muito cansado e com dor de cabeça em casa no início da nossa estadia na Virginia, de tanto se esforçar para entender e se comunicar em inglês. Nunca nos sentimos discriminados aqui.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Repito, nunca fomos discriminados. Temos ótimas amizades. Acho que o segredo para ser respeitado é respeitar os outros, em primeiro lugar. Os americanos em geral levam um tempo para permitirem intimidade, então as pessoas devem estar cientes disso e não ultrapassar limites. Aqui prevalece o respeito pela privacidade alheia. Não se escuta música alta ou gritaria do vizinho, por exemplo. e também não é comum que uma visita apareça na sua casa de surpresa. Tudo é muito bem combinado antes. Portanto, o brasileiro que vier para cá deve aceitar essas diferenças como parte de uma cultura, tentar seguir as “regrinhas”, e não encarar isso como discriminação por parte dos nativos. Bom-senso deve prevalecer, acima de tudo.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Sim, dois “meninos” (17 e 18 anos de idade). Os dois se adaptaram muito bem aqui. Mesmo na nossa primeira experiência, quando moramos na Virginia, não tiveram problemas. Aprenderam o inglês com muita facilidade, e hoje são fluentes. Na verdade, a gente se preocupa mais é com a fluência deles em português! Entre eles falam inglês a maior parte do tempo, mas eu e o Zé sempre falamos português em casa e preferimos que eles se comuniquem conosco em português. Eles têm amigos, são ótimos alunos (muito valorizados pelo sistema educacional) e estão completamente integrados à realidade local.

– Sente saudades da família no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Claro que sentimos saudades da família. Atualmente é muito fácil manter contato com as pessoas, através de chat, Skype, etc., mas nada substitue a presença física. O preço mais alto que se paga por morar fora de seu próprio país é a distância da família. Quanto a produtos, é natural que se sinta falta de algumas coisas, assim como quando eu voltei para o Brasil sentia falta de produtos daqui. Mas, na maior parte, encontramos quase tudo que usamos no dia-a-dia. Aqui em Vermont só ficou faltando a mandioquinha-salsa e o jiló! (coisas que eu sempre peço quando vou ao Brasil)

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
No verão aqui é muito agradável. Vivemos pertinho de um lago muito lindo (Lake Champlain) e de uma ciclovia que contorna a cidade toda, então adoramos sair para passear de bicicleta, caminhar perto do lago, fazer piqueniques. Também há fazendas para colher frutas variadas: morangos, framboesas, blueberries (mirtilo), maçãs. Vermont é um estado cheio de verde, então a qualidade de vida é ótima, o ar é limpo, puro.
No frio a maior parte das pessoas vão esquiar (o estado é muito famoso pelas estações de esqui), mas nós ainda não nos aventuramos. Os programas nossos na época do frio tendem a ser em locais fechados, como ir ao shopping, cinema, biblioteca (maravilhosas as bibliotecas públicas aqui nos EUA!!). Gostamos também de sair para comer fora. Há uma incrível diversidade gastronômica, só que não podemos sair para jantar com muita frequência porque restaurantes aqui são mais caros que no Brasil. Em família, comemoramos tanto os feriados brasileiros como os locais, por exemplo, Thanksgiving (Dia de Ação de Graças). O pessoal daqui costuma passar finais de semana em Montreal (fica apenas a 2 horas daqui) mas ainda não pudemos fazer isso pois não temos visto canadense de turista; um dia planejamos tirar. De maneira geral, penso que conseguimos atingir um bom equilíbrio, mantendo as tradições familiares do Brasil e incorporando as daqui.

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
É muito difícil prever isso agora. Vai depender de vários fatores, tanto financeiros quanto familiares.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imóveis é algo comum nesse país?
Nós alugamos um apartamento muito bom, em um condomínio bem localizado, em uma parte tranqüila da cidade, com vista para o lago e para a ciclovia. Chegamos a pensar na hipótese de comprar o apartamento onde moramos (já nos ofereceram para venda) mas no momento preferimos alugar. Pagamos US$ 1.500,00 por mês de aluguel, com TV a cabo, água, manutenção (muito conveniente – se quebrar alguma coisa eles vêm arrumar), coleta de lixo (sim, aqui isso é pago) e aquecimento (despesa altíssima aqui) incluídos. A maioria das pessoas aqui compra uma casa logo que pode. O pagamento da casa própria pode ser parcelado em 30, 40 anos, se bem que com a recente crise no setor financeiro aqui nos EUA essa situação tende a mudar.

– Qual o custo de vida?
Para viver tranqüilamente precisa-se de uns US$ 70 mil dólares/ano. Com bastante economia é possível uma família de 4 viver com US$ 50 mil/ano.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Não posso falar pelo país como um todo, mas das cidades daqui onde vivi (todas de pequeno a médio porte): de positivo, a segurança, estabilidade financeira (parece que as coisas estão mudando nesse setor), conveniência (tudo funciona) Enfim, a ótima qualidade de vida. Negativo: o frio indescritível (principalmente aqui em Vermont – na Virginia não era tão mal), e a distância da família.

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
Isso que vou contar nós percebemos em todos os lugares onde moramos aqui nos EUA, mas aqui em VT (Vermont) é mais acentuado: quando faz um dia bonito, TODO MUNDO sai fora de casa. Isso acontece principalmente no começo da primavera, as pessoas parecem ursos que páram de hibernar e saem da toca. Com a mudança de estações a gente aprende a valorizar mais um dia bonito.

– O país que você reside tem alguma coisa que é usada no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil?
As fazendas “pick-your own” (colha suas próprias frutas/verduras/legumes, e pague na saída). Com tanta fartura aí no Brasil, frutas caindo do pé e se estragando, seria muito legal abrir fazendas para o público. É um programa para toda a família. Imagina que legal um pomar com jabuticabas, ou laranjas, mangas, aberto ao público! Aqui é permitido comer enquanto se colhe, mesmo para provar a fruta antes de colher. No Brasil poderia ser igual, mas talvez devesse ser estipulada uma quantidade mínima que se deve comprar, para não haver abusos (tem brasileiro que quer “tirar vantagem”, né?).

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Acho que já falamos bastante acima.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
Se quiserem ver algumas fotos de Burlington, visitem nosso blog: www.brasilbelowzero.wordpress.com.

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9 Respostas

  1. Jose Eduardo e Debora, adorei a entrevista de voces!
    Tambem acredito que o Respeito e o basico requisito pra se morar em qualquer cultura. Amei, estou na FL e apesar da cidade como meu marido mesmo diz “not a typical american city” o respeito e a base do viver bem e em harmonia. Parabens pela entrevista, espero visitar Vermont num futuro proximo, ainda nao vi a neve:))) E ja visitei o site, muito lindo as fotos!

  2. Super Débora e Zé, show de entrevista!!!!
    Abraços da gaúcha Clarice

  3. Que bom poder ler uma entrevista de conterraneos!
    Cheirinho de Cana de Açucar com Sabor de Pinguin.

    Meire

  4. Amei ler essa entrevista…Super completa 🙂
    Bjokas

  5. Débora, gostei muito da sua entrevista. Procuro saber tudo sobre Burlington porque o meu filho mais novo (22 anos) está morando ai, trabalhando em um hotel, até março. E sabe como é mãe….
    Um abraço carinhoso

  6. […] fizeram com figurinhas carimbadas da comunidade: a Maria Lina em Paris, a Luisa em Milão, o Zé-Jet e a Débora em Burlington, a Marcie em Nova York e a Lucia Malla no […]

  7. Ola, Debora.
    Meu nome é Lamaetina e estou no Rio de Janeiro e me mudando para os Estados Unidos, meu Marido já está em Washington. Estamos pensando em nos mudar para um outro Estado, e pensamos em Vermont. Gostei das suas explicações. E gostaria de ver as fotos no blog. Voce tem um email, para entrar em contato.

  8. Oi, tenho 17 anos, meu sonho é me naturalizar americana, me sinto excluída aqui no Brasil, não me identifico com o modo de viver, com as pessoas com a cultura com nada no Brasil, porem tenho muito pouca condição de um dia poder estar ai no Estados Unidos pois pra mim é difícil ingressar em uma faculdade e conseguir todo o dinheiro para um processo de imigração, só fico pensando se um dia eu conseguirei porque não consigo me ver morando no Brasil o resto da vida.

  9. A matéria é tão antiga. Acredito que você nem vai ler meu comentário. Mais gostaria de saber sobre a comunidade Brasileira Ai, ainda não vi ninguém falar sobre a cidade. Pretendo ir pra Boston, mais me apaixonei por Vermont. Porém seria aquilo, o que eu poderia trabalhar e faxina.

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