Dissecando a França

Eloi na FrancaEloi é um daqueles expatriados privilegiados por morar em Paris, uma das cidades mais belas do mundo. Como ele mesmo diz: “…sempre que estou de mal-humor eu pego a bicicleta e vou passear na beira do Sena, faz bem para o espírito“. Por outro lado, admite que o dia-a-dia na Cidade Luz não tem o mesmo glamour retratado em fotos e filmes. Por isso mesmo, tem investido em viagens a outras regiões da França e se encantado com a riqueza natural desse pais.

Nome:
Eloi Silveira

– Onde nasceu e cresceu?
São Paulo, capital

– Em que país e cidade você mora?
Paris, França

– Você mora sozinho ou com sua família?
Agora com a família, porque me casei recentemente. Somos eu e minha mulher.
Eloi na Franca

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Há pouco mais de um ano e meio. Cheguei em março de 2007.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiência?
Sim, na Inglaterra, por um ano.

– Qual sua idade?
28 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Da primeira vez, em Londres, fui para ver como era, sempre tive vontade e não tinha um plano muito certo. Agora na França foi por conta exclusivamente da minha mulher. Vim para Paris por causa dela.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Não foi difícil não. Tanto como para estudante, como para visto de casado não tive problemas algum com nenhum consulado. No Brasil, aliás, sempre me trataram bem e me ajudaram, o que chega a ser ainda mais impressionante. Agora estou acertando minha vida como um “local” e passo pela última entrevista com a polícia daqui, mas não deve existir problema algum.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Neste caso é um pouco diferente. Tenho agora, que sou casado e faço parte do “sistema”. Antes, como estudante, não tinha não. Tomava muita vitamina e torcia para não ficar doente.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Trabalho para um site do Brasil (www.tenisbrasil.com.br) desde que cheguei aqui. Na verdade, trabalhei de 2001 a 2005 para eles e antes de vir morar na França voltei a falar com meu chefe e propus um sistema de trabalho à distância. Como ele estava passando por um momento complicado, com entrada e saída de funcionários, topou o teste apostando na minha experiência. Daqui fico “gerenciando”, lendo, revisando textos, escrevendo também e faço coberturas eventuais e por enquanto dá muito certo. Não chega a ser uma renda grande, mas dá muito bem para viver e sigo na minha área, o jornalismo, o que é muito importante para mim. A grande parte da renda, no entanto, vem da minha mulher.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Não, sigo no jornalismo.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Felizmente aprendi rápido o francês. Cheguei aqui sem falar quase nada e conversava em ingles com minha mulher. Depois de estudar 4 meses, sofrer bastante, passei a me forçar e mudamos a língua official aqui em casa, o que me ajudou a decolar. É extremamente importante falar a língua local, não dá para viver à vontade num lugar sem entrar de cabeça em sua cultura.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país? 
A França é um país extremamente rico culturalmente, mas é exatamente este fator que torna a população um tanto egocêntrica. Tudo é melhor por aqui, seja na comida, no cinema, na literatura. E quase não há espaço para o que é de fora. Que o diga os norte-americanos e ingleses, que costumam impôr sua cultura mundo afora, mas que aqui encontram um “adversário” à altura. Também por conta desta forte cultura, os franceses se intitulam abertos, um país democrático, onde árabes e muçulmanos puderam entrar e se estabelecer. De fato, quando eles foram precisos para as guerras, foram bem aceitos. Hoje a situação mudou e não são poucos os casos de maltratos e desrespeito com imigrantes que vieram de colônias africanas. Curiosamente, um brasileiro pode escapar ileso disso. Comum é dizer sua nacionalidade e ser bem tratado, com o tema futebol ou samba vindo à tona imediatamente. Neste ponto, é realmente incrível como o francês adora o Brasil, visto o número alto de casais mistos que encontro a cada dia. Recentemente, também fui cuidar de problemas do meu visto e sofri naquelas filas com outros imigrantes e seus diferentes casos. Ao dizer que era brasileiro e casado com uma francesa, recebi atendimento prioritário, com direito a sorriso da funcionária pública. Percebi que, colado em sua baia de trabalho, havia uma lista com todos os países da África e códigos para resolução de eventuais problemas. Imaginei que o mesmo tipo de recepção não deve ser comum para eles.
Eloi na Franca

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Não

– Sente saudades da família no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Sinto, claro. Adoro o Brasil, o clima, a abertura das pessoas, as relações de amizade…mas principalmente o clima. Em relação a produtos, comida, felizmente a França tem uma agricultura rica e uma cultura de carnes, queijos e vinhos muito forte. A imigração de africanos, àrabes, também ajuda a encontrar produtos de boa qualidade, até feijão. Mudei meus hábitos alimentares, mas é claro que uma coxinha, uma moqueca, uma guaraná, paçoca, quejo branco cairiam bem de vez em quando. Sinto falta também da boa saída com amigos para tomar uma cerveja num bar de rua, uma padaria barata para comer rapido. Isso nunca vai existir aqui.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes? 
Eloi na FrancaCostumo sair para desbravar a cidade, aproveitar parques, tentar ver amigos, passear, ir no cinema, teatro. Existe muito coisa boa e barata aqui, é so procurar bem. Há sites e livros especializados para quem não quer gastar nada, passeios de bicicleta e patins organizados. E fora que Paris por si só é uma pérola e vale ser visitada e revisitada. Costumo dizer que sempre que estou de mal-humor eu pego a bicicleta e vou passear na beira do Sena, faz bem para o espírito. E sempre carrego minha câmera, porque a probabilidade de você acabar em um lugar lindo que você ainda não conhece é grande.

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre? 
Gostaria de um dia voltar para o Brasil, mas cada dia que passa me adapto mais aqui e vou vivendo bem com minha esposa. O que pode apenas mudar é a cidade dentro da França (porque o clima de Paris é duro de aguentar, temos planos de ir para o Sul, em Marselha) ou talvez outro país na Europa.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imóveis é algo comum nesse país? 
Alugamos. É um “enorme” apartamento de 27m2, dois ambientes e que pagamos 670 euros sem a eletricidade. E o pior ainda é ouvir que “estamos bem” dos amigos que vêm nos visitar. Isso ilustra um pouco o estilo de vida em Paris e como este lugar é caro. E se você é brasileiro, não é comum comprar, embora haja casos. Mas se você é um local, considero normal. Um apartamento como o que alugo custa cerca de 200 mil euros.

– Qual o custo de vida? 
Um bom salário aqui já está na casa dos 1500, 2000 mil euros. Minha mulher costuma dizer que nunca vai ganhar mais que isso. Não tenho muita idéia, mas acho que com uns 3 mil euros mensais pode-se viver bem em 4. Em dois, alugando um apartamento, até com a metade disso. É só saber driblar gastos mais altos e saber onde gastar.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Positivos: estar num país que foi berço de inúmeros eventos importantes ao longo da história; ter uma cidade linda como Paris para admirar sempre, sempre; o sistema de transporte (incluindo trens de alta velocidade); o sistema social, que apesar de ter quebrado o país financeiramente, funciona excepcionalmente bem; o sistema de saúde, a organização da cidade; o número de cafés, restaurantes, bares; a comida de excelente nível; o número de museus, cinemas e teatros; estar no centro da Europa e poder partir para qualquer lugar sem gastar muito; e muitos outros…

Negativos: o clima de Paris e do norte; ter que aguentar o campeonato francês de futebol; as pessoas amargas e que não costumam rir à toa; o preço caríssimo de tudo, de uma mera cerveja, de um café expresso
Eloi na Franca

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país? 
Existem hábitos locais muito marcantes, como sair cedo de casa para comprar sua baguete e o jornal e voltar pra casa dando bom-dia para os vendedores de frutas e açougueiros do bairro. É normal ver gente em metrô e trem com baguete dentro de uma sacola. E a explicação: uma boa refeição para um francês começa pelo pão escolhido. Nada melhor que raspar o prato com aquele último pedaço deixado na mesa. O que também acho estranho e extremamente chato é o rigor da língua e a formalidade das pessoas. Chamar um senhor, o vendedor, o cara da boulangerie de “tu“ é crime. Tem que ser “vous“, uma espécie de você muito mais sério e respeitador, algo que é até mesmo difícil de explicar para um brasileiro.

– O país que você reside tem alguma coisa que é usado no dia a dia que você acha que seria interessante ser implementado no Brasil? Conte-nos… 
Em termos de culinária, a França dá um banho em praticidade, com alimentos de mais f́acil utilização (e que não necessariamente são bons), como o purê em pó, temperos prontos, diversos tipos de congelados…Na area social, o que acabo de conhecer e me encantar são os cursos dos centros de animação espalhados pela cidade. São cursos de tudo que você pode imaginar (instrumentos, artes marciais, foto, desenho, línguas, danças, esportes, enfim, tudo) que são subsidiados pela prefeitura. Obviamente não são cursos profissionalizantes ou de nível altíssimo, mas são extremamente úteis.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país? 
Meu blog é o http://eloisilveira.wordpress.com/.

Tenho outros amigos que escrevem também, um deles é o Bruno, http://nuvempreta.blogspot.com/ e outro é o Daniel http://cheriaparis.blogspot.com/.

 

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8 Respostas

  1. […] Outubro 21, 2008 at 10:48 am (Casa e Familia) (entrevistas, Expatriados, Montmartre, Paris) Faço uma pausa nos posts de Montmartre para colocar a entrevista que eu dei para o site Entrevistando Expatriados, da Mirella. Segue o link https://expatriados.wordpress.com/2008/10/20/dissecando_franca/ […]

  2. Ola Eloi

    Muito legal ler a sua entrevista e principalmente perceber o quao diferente podem ser as impressoes de um brasileiro morando em Paris e compara-las as impressoes que eu tenho morando em Toulouse.
    Um abraco,

  3. Eu adorei Paris qdo esdtive aí, pena que fiquei pouco tempo e não deu pra ver tudo, mas isso será reparado 🙂

    Um abraço.

  4. Muito legal a entrevista, Elói!
    E parabéns aos responsáveis pelo blog. Os relatos dos entrevistados sao bem interessantes.
    Abraços

  5. Oi Eloi! Parabens pela entrevista, muito legal a sua franqueza e simplicidade. Eu e meu marido estamos avaliando uma proposta de expatricao para a Franca, seu depoimento nos ajudou muito!
    Abracos e desculpem me a falta de acentos

  6. olá Eloi sou casada com um francês a um ano, e moramos no Brasil. Gostaria muito de fazer um curso de lingua francesa em Paris, mas meu marido vai continuar aqui no Brasil, vc sabe o quais documentos preciso para viver ai por 6 meses?

  7. Eloi é nos na França.
    Se por acaso vc vinher viver en marselha; aqui vai meu email de: Vivia , brasileira casada com frances.
    VIVIActessier@yahoo.fr
    bjs

  8. Adorei a entrevista.

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