Farofa na neve

Daiza na ItaliaDaiza começou seu romance com um italiano através de cartas. Há mais de 17 anos, internet não era de fácil acesso como atualmente… e foi esse romance que a levou para Italia. Hoje, depois de tanto tempo fora do Brasil, ela não sabe onde seu lado italiano termina, para entrar o brasileiro.
Sem dúvida, uma entrevista encantadora e realista de uma vida expatriada.
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Nome:
Daíza Neves

– Onde nasceu e cresceu?
Na cidade do Rio de Janeiro.

– Em que país e cidade você mora?
Em Varese, na Itália, uma província no extremo norte do país, na fronteira com a Suíça italiana.

Daiza na Italia

Daiza na Italia Daiza na Italia

– Você mora sozinho ou com sua família?
Marido, uma filha e uma cachorra.

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Desde junho de 1991, 17 anos.

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiência?
Não.

– Qual sua idade?
Quarenta e nove.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Não foi uma idéia, aconteceu. Nunca pensei em viver fora do Brasil e muito menos casar com um estrangeiro mas uma soma de fatos acontecidos num breve espaço de tempo me levaram a fazer as malas e partir, com poucas possibilidades de volta.
Eu tinha um trabalho seguro como secretária em uma estatal e, além da faculdade, fazia um curso de italiano onde o professor increveu a todos os alunos em um jornal daqui, para que nos correspondessemos na língua e, para nossa surpresa, recebemos muitas cartas com pedidos de amizade (não existia a internet!). Foi assim que “conheci” meu marido: trocamos cartas e telefonemas de 1988 a 1991. Decidimos de estar juntos e em menos de três meses larguei tudo, peguei minha filha (na época com sete anos) e partimos.
Além do motivo sentimental, outra coisa que me incentivou a partir foi a impossibilidade de viver e criar minha filha tranquilamente numa cidade como o Rio, que já naquela época apresentava índices de violência bastante altos e com pouca esperança de melhorar.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Entrei no país com visto de turismo e, terminado o prazo, fiquei por aqui mesmo. Vivemos por três anos sem os documentos regulares, mas naquela época, o fluxo de imigração para a minha cidade era muito pequeno e a minha presença no país era do conhecimento das autoridades de polícia local. Não tive nenhuma dificuldade em colocar minha filha na escola, nem de circular livremente pelo país.
Somente em 1994, quando casamos, a situação foi regularizada.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Com os documentos em ordem, automaticamente você recebe o cartão sanitário, válido para o sistema público de saúde. Nos três anos sem documentos, fizemos um seguro para minha filha e eu utilizei o serviço particular, quando necessário.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Meu marido é proprietário de uma pequena lavanderia, onde trabalho. Comecei pouco tempo depois da minha chegada, assim evitamos os altos custos de contratação de um operário. Foi muito difícil adaptar-me a este tipo de trabalho mas com o tempo aprendi a superar as dificuldades e a sentir-me bem com o que faço.

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Completamente fora.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
Já cheguei aqui com uma boa base da língua. As dificuldades iniciais foram superadas com a ajuda do meu marido que se interessou ao meu aprendizado fazendo-me ver filmes, ler livros, cantar as músicas e ele mesmo corrigia meus erros. Isso também contribuiu para que eu pudesse conhecer mais da história do país, entender um pouco mais do sistema político, conhecer os hábitos e costumes através dos tempos.
Por causa do contato com o público, também tive que aprender ao menos a entender o dialeto local, bastante utilizado pela população anciã.
Acho que é de importância vital uma boa comunicação em terras estrangeiras. A má comunicação impede o progresso pessoal, nega a possibilidade de conhecer mais e além de tudo leva a mal-entendidos de ambas as partes, muitas vezes criando sérios problemas.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
A Itália é dentro de mim quase como o Brasil. Depois de tantos anos é impossível não amar o lugar onde você vive e está bem. Ainda reclamo, ainda acho defeitos, mas tanto quanto aos que nasceram aqui. Já estou tão enraizada que nem faço mais comparações com o Brasil – até porque não tenho mais parâmetros de medidas entre lá e cá: fiquei onze anos sem ir ao Brasil e quando voltei pela primeira vez já me senti uma estranha.
Fui bem-recebida, as pessoas foram gentis e nunca sofri diretamente com o racismo. O que havia era muita curiosidade, muita ignorância a respeito de outras culturas e uma certa desconfiança com o que eles não conheciam. As pessoas são de boa índole mas muito fechadas em si mesmas, estranhei demais a fria cordialidade do começo, como eles estranharam todas as coisas que eu trouxe e que consideram “excessos”: rir, cantar ou demonstrar os sentimentos em modo exagerado, para o modo de ver deles.
Por causa da minha profissão, sou muito conhecida no bairro. Gosto da maioria das pessoas e eles demonstram o mesmo por mim. Aqui o valor de um estrangeiro é medido principalmente pelo seu esforço no trabalho, na sua capacidade de adaptação e logicamente, no comportamento correto. Infelizmente, nos dias de hoje, com a grande quantidade de imigrantes que vivem aqui e não se adaptam ou cometem irregularidades, a tolerancia diminuiu bastante e começam a preocupar os episódios de racismo contra os estrangeiros em geral.

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Por ter chegado aqui pequena, minha filha se adaptou logo e sem problemas à vida daqui. Aprendeu a língua rapidamente e foi muito bem na escola. Hoje, com 24 anos ela trabalha numa companhia aérea brasileira e está se preparando a ter uma vida independente.
Uma coisa que acho importante é conseguir conciliar os filhos com as duas culturas comtemporaneamente. Vejo algumas pessoas que na ânsia de querer adaptar os filhos ao novo país, cancelam a cultura de origem. Cultivar a língua e as tradições só traz benefícios na vida futura.

– Sente saudades da família no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
Saudade é coisa eterna, está no DNA do brasileiro, até a palavra nos identifica mundialmente!
A pior coisa para um expatriado, é a falta dos pontos de referência que só a família dá. A solidão é imensa e nada preenche o vazio de não poder estar junto de quem sempre fez parte de ti. Até hoje me sinto em culpa por achar que subestimei o que iria sentir estando longe deles. O tempo não consegue apagar e temos que aprender a conviver com esse sentimento sem deixar que ele atrapalhe o desenrolar da vida atual.
Quanto aos produtos, sentia muita falta no início e minha mãe mandava sempre o “pacote-imigrado”, ou seja: feijão preto, farinha, carne-seca, leite moça e etc. Depois de alguns anos, com o aumento da população estrangeira, começaram a surgir também nas pequenas cidades as lojas de produtos importados e hoje até nos supermercados normais podemos encontrar alguma coisa, principalmente no que diz respeito às frutas. Os preços são exorbitantes e não é que se pode comprar com tanta frequência, mas a gente sempre dá um jeitinho prá feijoada básica.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
Não tenho muitas atividades sociais. Trabalhamos de segunda a sábado e aos domingos tenho tantas coisas para fazer em casa que às vezes até desisto de sair. Normalmente saímos para almoçar ou jantar fora quando chega a primavera e o verão, pois no inverno não tem nada por aqui. Vamos também nas festas ao ar livre onde também se pode dançar e estar na companhia de amigos.
No mais, o computador é um grande amigo.

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
Acho que ficarei por aqui mesmo, salvo se por qualquer motivo muito grave mude de idéia. Estamos planejando de comprar casa no Brasil com o interesse de passar férias e como investimento.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imóveis é algo comum nesse país?
A casa onde vivemos é de nossa propriedade e também o negócio de lavanderia situado no andar inferior. Ainda estamos pagando as prestações e o valor é de cerca de 20% do nosso faturamento mensal. Aqui, muita gente é proprietário do imóvel onde reside, já que o valor do aluguel é quase equiparado ao valor de uma mensalidade. O problema é que atualmente as taxas de juros aumentaram demais e com a insegurança que traz a crise de trabalho, fica muito difícil assumir o compromisso da compra.

– Qual o custo de vida?
Moro em uma das regiões mais caras da Itália. O salário-base de um operário é de cerca 1.400 euros e para poder pagar o básico dentro de uma família, ao menos dois adultos deve trazer o salário. Também é quase impossível viver sem carro já que o sistema de transportes é deficiente – os onibus começam a circular muito tarde em respeito aos horários de entrada dos locais de trabalho. Juntando as despesas com alimentação, roupa e escola fica muito difícil chegar no fim do mês e ainda conseguir guardar alguma coisa.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Aqui se está relativamente bem no que diz respeito aos serviços que precisamos para viver: saúde, escola, segurança, etc. as taxas são caras mas temos ruas limpas e estradas decentes. Prá mim, isso já é um grande passo para estar bem e tranquila.
Não gosto do ritmo de vida, do tempo demasiado que dedicamos ao trabalho para ter que pagar todo esse bem-estar. Tempo que subtraimos da vida em família. Aqui se vive em alta velocidade e se você não acompanha o ritmo, está fora do jogo.
A maior dificuldade para os estrangeiros aqui, é a burocracia no que diz respeito à regularização dos documentos, as leis obtusas e a falta de elasticidade na mente de quem as cria/executa. Para os novos imigrados, a dificuldade em achar ocupação regular sem ter que se submeter a trabalhos sub-pagados (geralmente sem carteira assinada) que os italianos não querem mais fazer.

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
Uma coisa que me impressiona aqui é a baixa natalidade. É um país ancião e, consequentemente, com grandes dificuldades em investir no futuro. A esperança está justamente no grande fluxo de imigração: um paradoxo.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Aqui ou em qualquer outro lugar: informar-se, adequar-se, integrar-se e esforçar-se.

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
O meu blog pessoal está para completar 6 anos. Nele, escrevo sobre coisas daqui, vida pessoal e comentários sobre o que acontece no Brasil – Farofa na Neve.

Tenho também um outro blog, feito somente com colagem de posts de outros blogs de brasileiros no exterior. A idéia inicial era de agrupar posts que falavam do problema da falta de ralo nas casas do exterior. Achei muito interessante que tantas pessoas faziam textos sobre essse “grande problema” de não poder limpar as casas direito por falta de ralo! Depois comecei a postar também textos que falavam de qualquer assunto, desde que fosse engraçado ou curioso sobre a vida fora do Brasil. No final de cada post, tem o link para o blog que originou o post.
Quem quiser, pode mandar ou assinalar posts para serem publicados – http://semralo.blogspot.com.

No mais, sugiro que procurem outros blogs de brasileiros na Itália. Assim, as pessoas podem ter uma idéia do nosso dia-a-dia, da vida como ela é.

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10 Respostas

  1. Dazia,

    Parabéns por todas as vitórias !
    Eu também conheci meu marido por correspondência, porém há 22 anos atrás. Via International Penfriends, da Irlanda.
    Hoje em dia a internet facilita bastante as coisas.
    Tenho amigosda minha cidade natal morando ali na Itália. Todos gostam demais !

    Abraco,

    Susana

  2. Daíza, amei sua entrevista. Que legal saber que correspondência também muda a vida da gente.
    Tenho uma amiga (aliás duas) que conheceram os respectivos via carta.
    Eu conheci o meu via internet. Depois veio o encontro pessoal e aí não teve jeito… fazer as malas foi uma questão de tempo.
    Desejo sucesso para você e quem sabe um dia ainda visito a Itália! Está na minha lista de férias hehe

  3. Que maravilha de Post!
    Parabems pelo trabalho e pela escolha deste topic,
    me alegro por trabalhos como este! Parabems!

  4. Estou rindo até agora das tuas respostas comedidas. Quem ta’ acostumado com o teu blog deve estar achando estranha essa seriedade toda 😉 Eu certamente teria reclamado muito mais…

  5. Daíza já tinha ouvido falar de vc através da Meiroca e amei ler sua reportagem aqui 🙂
    Obrigada por dividir com a gente sua longa experiência aí na Itália 🙂
    Bjokas

  6. oi gente! obrigada pela força… beijos a todas

  7. […] Daíza: http://www.farofananeve.blogger.com.br (Veja a entrevista dela no Entrevistando Expatriado, clique aqui) […]

  8. Oi, de vez em quando eu tô lendo o teu bloguito. Meu marido nasceu e viveu aí até os 12 anos de idade, mesmo sendo francês. Ele se sente mais próxim da Itália do que da França. Minha cunhada ainda mora poraí, em Besozzo, pertinho, não é? Quando eu vou pra a casa dela, nas férias, penso sempre em ti :o))
    Legal ler tua experiência aí, aliás é sempre bom ler as experiências dos brazucas no exterior. Ajuda a ver que a gente não “galerou” sozinho :o))
    Bjs

  9. Ahhh!!! nem me fale do ralo!! Descobri este problema, quando na época meu namorado estava no Brasil e eu , querendo aprender logo alemão, perguntei comos e falava ‘ralo” e “rodo” , pois estavamos limpando meu apê… ele ficou sem graça e disso que nunca tinha visto isso(o rodo) antes de vir pra cá pro Brasil.. eu mal acreditei. Meses depois, quando fui para a Austria passar uns tempos com ele… noooossa!!!Cadê o ralo??? Bom, verdade que tudo secava muito mais rápido por ser mais seco o clima… mas que surpresa….!!!

  10. Oi meu nome e Laura e conheci pelo facebook um rapaz de vareze estamos trocando msgs , e ai surgiu o convite para ir morar em vareze terei que largar tudo faculdade trabalho para viver essa nova vida e tenho um pouco de receio duvidas …… Gostaria de receber notificaçoes sobre o local bjs a todos……

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