Brasileiros na Land Downunder

Carlos em Sydney, AustraliaCarlos, profissional da área de IT (Information Tecnology), imigrou com a família para Australia. Em Sydney há 2 anos e meio, ele nos conta sua experiência como imigrante.
Através de suas palavras é possível claramente perceber os sabores e dissabores da vida expatriada.
Leia mais…

– Nome:
Carlos Guarany

– Onde nasceu e cresceu?
Petrópolis-RJ

– Em que país e cidade você mora?
Sydney, Austrália

– Você mora sozinho ou com sua família?
Eu, minha esposa, meu filho de seis anos e minha filha de seis meses.

Carlos em Sydney, Australia

– Há quanto tempo você reside nesse local?
Dois anos e meio

– Já residiu em outro(s) país(es) antes dessa experiência?
Não

– Qual sua idade?
37 anos.

– Quando surgiu a idéia de residir no exterior?
Estava muito bem estabelecido no Brasil, mas vivia sob um enorme estresse no trabalho e no dia a dia violento do Rio de Janeiro. O Moacir, um amigo que hoje reside no Canadá, nos mostrou o caminho da imigração numa mesa de uma pizzaria. A partir daí a idéia foi se desenvolvendo. Coletei aos poucos os documentos necessários e quando eu me percebi já tinha feito o IELTS e estava pronto para aplicar para o visto de residente permanente. Cada um nós decidiu imigrar para um país diferente, mas mantemos o contato sempre que possível.

– Foi difícil conseguir o visto de residência ou o visto de trabalho?
Sim, apliquei em Outubro de 2003 e só tive o visto no passaporte em Maio de 2005. Achei até que eles haviam me esquecido e não obteria mais o visto.

– Você tem seguro saúde? Foi difícil obtê-lo antes ou depois da sua chegada?
Temos direito ao Medicare, o sistema de saúde público que é muito bom. Temos também um plano hospitar particular que nos provê atendimento nos hospitais privados. Não é caro e o governo custeia uma parte. Não é obrigatório, mas se paga uma multa dependendo da renda familiar caso você prefira não adquirir. Com ele você se sente mais seguro e tem algumas regalias tais como poder escolher o médico que fará sua operação ou parto e a garantia de um quarto particular no hospital.

– Você trabalha? Como a renda familiar é obtida?
Chegamos sem conhecer ninguém, sem referência local ou qualquer contato. Priorizei minha família. Alugamos o apartamento, matriculamos meu filho na escola e minha esposa nas aulas de Inglês oferecidas pelo governo ao imigrante. Depois de tudo estabilizado, enviei meu currículo pela Internet (http://www.seekit.com.au/), participei de três entrevistas. Fui escolhido para uma delas e comecei a trabalhar 10 dias depois de começar a procurar emprego. Sou da área de TI e tenho um bom currículo e experiência e um Inglês suficiente que me ajudaram a obter um emprego bem rápido. Minha maior dificuldade foi a referência local normalmente exigida ao candidato. Eu tinha uma carta de referência do Brasil, mas não foi suficiente. Foi o Sandro Rehder que me ajudou e falou coisas boas sobre mim quando recebeu a ligação. Serei sempre grato por isso.

Franci versão Australia/Brasil

– Se a resposta anterior foi sim, você mudou de área depois da saída do Brasil ou continua no mesmo setor?
Continuo no mesmo setor, mas mudar de área é uma coisa bem comum independente da idade. A idade média do Australiano é 37 anos e uma pessoa de 40 anos é valorizada pela experiência, mas ainda considerada jovem no mercado de trabalho.

– Você fala a língua local? Você acredita que é importante aprender a língua local?
É essencial em qualquer área. Tem que ser priorizada por quem deseja imigrar. O inglês Australiano é de difícil compreensão. Muitas expressões locais e o jeito de falar rápido, alterando o tom da voz e omitindo sílabas dificultam muito a nossa vida. Hoje compreendo bem melhor, mas ainda tenho que prestar mais atenção para entender o que um Australiano fala do que qualquer outra pessoa de diferente nacionalidade, incluindo os imigrantes de língua não Inglesa.

– O que você pensa sobre seu novo país e o local onde mora (e/ou onde morou)? Eles respeitam os Brasileiros e outros expatriados vivendo nesse país?
Talvez o fato de terem sido colonizados por prisioneiros Ingleses reflita no jeito mais relaxado, simpático e com menos preconceitos do que outros países de mesma origem. Churrasco e cerveja são sagrados. Mas não espere o mesmo calor humano dos Brasileiros. Por mais que sejam amigáveis há sempre uma distância, um limite.
Existem pessoas preconceituosas em qualquer lugar do mundo. Eu nunca tive qualquer problema, sempre fui bem tratado e respeitado por todos como Brasileiro. O estereótipo não ajuda e é mais difícil principalmente para as mulheres a meu ver. Cabe a nós mostrar a eles o lado bom do Brasil. Violência, futilidade e promiscuidade já são muito bem expostas pela mídia. A cultura Brasileira é muito rica, procuro sempre enfatizar o lado positivo, as belezas naturais, a diversidade cultural das diferentes regiões, a inesgotável fonte de recursos e a receptividade, simpatia e alegria do povo Brasileiro. Fiz colegas e alguns amigos de inúmeras partes do Globo. Tenho por exemplo um amigo Curdo, do sul da Turquia, uma alma grandiosa que eu conheci nesta vida.

Há muitos direitos trabalhistas e benefícios sociais. A sociedade em geral é igualitária, não há crianças de rua, empregadas domésticas nem porteiros de prédio como conhecemos no Brasil. O trabalho de casa é feito pela família. É um socialismo imposto pelo capitalismo mais justo. (frase louca que eu criei!).

– Você tem filhos? Se sim, eles se adaptaram ao novo país? Estudam e têm amigos locais?
Meu filho quando chegou não sabia uma palavra de Inglês. Recebeu Honra ao Mérito no ano passado e está agora cursando o primeiro ano numa escola pública. Fala o Inglês com perfeita fluência e sotaque local, corrige as besteiras que eu falo e ensina minha esposa. Está bem integrado, joga o campeonato de futebol (soccer como se chama por aqui) e fez muitos amiguinhos. Minha preocupação maior agora é que ele não esqueça o Português e nem fale como um gringo. Minha filha nasceu aqui no ano passado. Pretendo fazer o possível para deixá-los sempre em contato com a cultura Brasileira e ter orgulho do Brasil.

Igor e o canguru na Australia

– Sente saudades da família no Brasil? Sente falta de produtos, alimentos e outras peculiaridades?
A saudade é grande e esta é, sem dúvidas, a pior parte da imigração. Os avós acompanharam o neto desde que nasceu e de repente eles todos estão privados do convívio quase que diário. É duro e é preciso estar muito bem preparado psicologicamente. A tecnologia ajuda muito, internet, telefones IP etc., mas nada substitui a chance de poder abraçar quem você ama a qualquer hora.
Os produtos Brasileiros nós encontramos praticamente todos, seja em “Petersham”, o Bairro Português ou no bairro chamado “Manly” onde tem muitos Brasileiros. Há também em Sydney bons restaurantes Brasileiros, desde a birosca que faz um “PF” e tigela de açaí até restaurantes mais sofisticados incluindo uma boa churrascaria rodízio. A única coisa que minha esposa sente falta é da “Banana da Terra”, aquela que se come cozida no café da manhã de algumas regiões do Brasil.

– O que costuma fazer nas horas vagas, finais de semana e feriados? Quais as atividades recreacionais existentes?
É uma vida bem outdoor, bonitas paisagens, muitos parques e praias limpas. Reuni-se muito com os amigos para fazer picnics e churrascos. Há inúmeros campos de futebol, trilhas de bicicleta e quadras de esportes. Não se pode beber ou carregar bebidas alcoólicas nas praias e isto desagrada os Brasileiros. Mas nos parques é comum levar um “cooler” com vinho ou cerveja sem problemas.
Quando chove tem que se ficar em casa, vendo filmes, jogando vídeo game ou lendo um bom livro. Os “Shoppings Centres” fecham muito cedo às 17h, mas os dias chuvosos são raros.
A vida noturna de Sydney é igual a de toda grande metrópole com muitos shows, festivais, concertos, óperas, musicais da Broadway etc.

– Você tem planos para o futuro? Pretende viver nesse país para sempre?
É difícil dizer. Estou feliz aqui, encontrei o que procurava; uma vida tranqüila sem estresse e violência para criar meus filhos, ambiente de trabalho cordial, respeito e todos remando na mesma direção.
Meu campo de trabalho requer viver perto de um grande centro ou metrópole. Este estilo de vida é impossível atualmente numa das grandes cidades Brasileiras. A concentração absurda de renda, corrupção em todos os níveis e impunidade transformaram elas numa selva inabitável onde todos lutam para sobreviver.
Me sinto já um pouco Australiano, não só no papel, tenho muitas afinidades, mas sonho um dia poder voltar a morar no Brasil que é um país abençoado, seja numa cidade pacata no interior de Minas Gerais, numa praia paradisíaca do Nordeste, um sítio no Mato Grosso ou numa aconchegante cidade na região Serrana do Rio. Porém, antes disso, gostaria de viver em um terceiro país e o Canadá parece ser outra boa opção.

– Você comprou ou alugou o local que reside? Quanto pagou ou paga por isso? Comprar imóveis é algo comum nesse país?
Estou alugando, não vale apena comprar neste momento quando os preços atingiram o pico e as taxas de juros estão altas. Sydney é umas das cidades do mundo cuja compra de imóveis está no momento menos acessível e mais difícil como se pode ver neste estudo (http://www.demographia.com/dhi-ix2005q3.pdf)

– Qual o custo de vida?
O custo de vida é muito alto, principalmente os serviços porque o preço da mão de obra é muito alto. O casal deve planejar a vida para que os dois possam trabalhar, porém é bastante complicado com filhos pequenos, antes da idade escolar de cinco anos, pois as creches são muito caras. Portanto os casais com filhos pequenos devem planejar e calcular os prós e contras cuidadosamente.

– Quais os pontos positivos e negativos de morar nesse país?
Positivos:
Segurança, qualidade de vida, respeito às leis, retorno dos impostos em forma de infra-estrutura e benefícios, clima sensacional, belezas naturais, ambiente de trabalho humano, oportunidades iguais e boas ofertas de trabalho no momento.

Negativos:
Distância, fuso-horário, isolamento em relação ao ocidente, custo de vida, preço caro das passagens internacionais e o horário de funcionamento do comércio muito restrito.

– Qual a curiosidade que mais te chama a atenção nesse país?
O jeito despojado tipo “ninguém tem nada com a minha vida“. Você vê pessoas de paletó a “chinelos havaiana” no ônibus.
A quantidade de idosos e jovens trabalhando. Nenhum trabalho é vergonhoso, tudo que se faz é digno.
A coleta de lixo é feita uma vez por semana por apenas uma pessoa que opera o caminhão-robô sem sair da cabine. Tem um braço mecânico que pega as latas de lixo já selecionadas para reciclagem e joga no compartimento correto do caminhão.
Os que seriam chamados de “Farofeiros“ no Brasil é o que mais se vê nos fins de semanas onde se montam barracas e se traz de tudo para as mesas de almoço montadas nos parques.
As piscinas de água salgada do mar que existem ao lado das praias, ideal para os não-surfistas ou para os que tem medo dos tubarões. As praias são monitoradas e só se pode tomar banho sem prancha entre as bandeiras colocadas pelos salva-vidas. Às vezes toca uma sirene e todo mundo tem que sair da água porque tem tubarão à vista. Daqui a pouco tudo volta ao normal e volta-se para água como se nada tivesse acontecido.

– Você tem sugestões ou dicas para pessoas que pretendem viver nesse país?
Treine muito o inglês.
Esteja preparado para a saudade.
Não pense que aqui é um Brasil sem problemas e sim um país organizado, de diferente cultura, com muito sol, praia e algumas semelhanças com o Brasil. Pense num país único que você vai descobrir aos poucos. No final das contas quem vem dos EUA, acha a Austrália parecida com a Europa. Quem vem da Europa acha parecida com os EUA.
Planeje tudo cuidadosamente, venha com coragem e esta será uma experiência muito gratificante.
Igor na piscina publica de agua salgada Carlos e sua mae em Sydney, Australia

– Você gostaria de recomendar algum web site ou blog relacionado à esse país?
Os sites que obtive ajuda, apoio e informação são na verdade duas comunidades do Orkut camadas:
Australia-Brasil, Aussileiros” e “Mães Brasileiras na Austrália”.

Participe… deixe seu comentário!!!

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10 Respostas

  1. Olá Carlos!
    Obrigada pela sua ótima participação aqui, eu adorei sua entrevista.

    Meu marido tbm tá na área de IT e pensamos em morar fora do BR(moramos no RJ) Infelizmente a violência e a falta de respeito estão acabando com nossa cidade.Nossa opção seria Europa, por conta da nacionalidade dele e tbm pelos parentes que moram lá.

  2. Boas Carlos,

    Espero que esteja tudo bem contigo. Lí sua entrevista e gostei…eu estou a pensar também em migrar para a Austrália, procurando novas prespectivas…na verdade termino minha faculda este ano, também em TI, e quero começar do zero…uma vida nova e a Austrália sempre foi um dos sonhos.

    Assim, gostaria de trocar algumas ideias contigo…aprender mais antes de tomar a decisão final…se estiver disponível…me manda um mail ou me adiciona no msn…elisiofreitas[at]hotmail.com…

    Cumprimentos para tua família aí…
    Elísio Freitas.

  3. Quero migrar com meus filho e meu marido para o Canadá.

  4. Alguns amigos nossos moram aí e també adoram.
    Muito boa a sua entrevista!
    Um grande abraco!

  5. Carlos, legal seu depoimento, o você relatou coincide com nossa visão . Estamos morando na Austrália há quase 2 meses e depoimentos como o seu ajudam-nos a reforçar o sentimento de que fizemos a coisa certa neste momento.

  6. Carlos,

    Parabéns pela entrevista.
    Adorei a mensagem que vc deixou:
    Esteja preparado para a saudade.
    Não pense que aqui é um Brasil sem problemas e sim um país organizado.
    Moro na Alemanha e sei o quanto doe a saudade. Ainda bem que ai tem pelo menos sol/praia, já não posso dizer o mesmo daqui.

    Boa sorte
    Meire

  7. Muito esclarecedora a sua entrevista! Eu e minha esposa recebemos o visto de residencia permanente e estaremos migrando para a Australia em alguns meses.
    É sempre bom saber a opinião de um conterraneo que já passou por esta experiencia e nos dá uma idéia bem realista do dia a dia da familia num país como a Australia.
    Espero que possamos nos encontrar a;gum dia em Sydney e fazermos um churrasquinho bem brasileiro!!

    Um abraço!

    Vinicius Monteiro
    Curitiba-PR

  8. Muito boa essa entrevista ainda tenho 14 anos mas ja estou pensando em ir pra Australia

  9. Olá Carlos. Como vai?

    Também sou da área de Ti e estou com o intuito de migrar para a Austrália com minha esposa e filho de 6 anos.

    Você poderia me passar seu e-mail (o meu é nilson_cara@hotmail.com) para mantermos contato?

    Grande abraço.

  10. carlos,obrigado pela entrevista.eu estive nos Estados Unidos por 7 anos,estou no brasil ha 1 ano,nao consigo mais viver nesse pais de tantos problemas,por isso estou pensando em ir para austraia,tenho amigos que vive ai,e eles falam muito bem,tenho uma otima vida no brasil,mas esse pais ainda e uma vergonha,aqui e uma terra sem lei,esse nosso brasil e um pais dificil de se viver,felicidades p vc e sua familia,abrass…

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